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as histórias felizes
rosas
innersmile
(para a Madalena, naturalmente)

Em 1970 uma miúda de dezoito anos chegou a Nampula, no norte de Moçambique, a viver um tumulto de emoções. Durante umas semanas, ficou em casa de amigos dos pais, que tinham também dois filhos, o mais novo com oito anos de idade. Desses dias, ficaram a desenhar a memória um grupo de fotografias, de pequeno formato, a preto e branco, e poucos minutos de um filme caseiro, filmado numa câmara super 8 automática, com imagens um pouco foscas, como a própria memória, de um passeio na represa. É difícil, sobretudo para o rapaz dos oito anos, separar aquilo que são memórias próprias das que se fixaram na aparência feliz e limpa das fotografias. Como numa qualquer short story, o desenlace não resolveu o enredo, e a miúda de dezoito anos, e as demais personagens, ficaram a pulsar tranquilamente à espera de desenvolvimentos narrativos, enquanto o mundo, com a placidez dos furacões, mudava de lugar.

O tempo operou a sua elipse, os acontecimentos sucederam-se em vorazes fast-forwards. Nos anos da década de 2000, surgiu a ideia de que as desgarradas personagens das histórias se poderiam dar a improváveis encontros nos foros da internet, nas páginas de comentários de blogs, na frágil e virtual suspensão das redes sociais. Confortado com a imponderabilidade das ausências, o narrador desta história cruza conhecimentos, traça linhas, troca frases, e faz amigos. A coisa lá opera os seus milagres, e chega ao contacto de um blog de uma escritora de dois livros que o tinham marcado. Livros de memórias, de viagens, daqueles onde a realidade e a fantasia entretecem narrativas que sirvam para revelar as verdades importantes, que são aquelas onde as emoções se mostram e se aquietam.

Na página de comentários desse blog, o narrador do parágrafo anterior cruza-se com uma senhora respeitável, professora, contadora de histórias, e percebe-se que os passados de ambos, e os presentes também, e até os prodigiosos futuros, têm referências comuns. Vir-se-á a descobrir que ao longo dos anos cada um deles acalentava, como um berlinde da infância que se traz na algibeira, a vaga impressão de que não eram dois estranhos absolutos. De plataforma em plataforma, foram trocando comentários, escrevendo diálogos, navegando à vista no consolo de que nunca andamos sozinhos no mundo.

Um destes dias, num ontem qualquer, os dois chegam à fala, saem da penumbra onde se acoitavam e revelam aquilo que, de um momento para o outro, passou a ser uma evidência antiga: a miúda de dezoito anos e o rapaz de oito, depois de andarem linhas e linhas a tropeçarem um no outro, afinal sempre aqui estiveram, cada um deles, à sua maneira, a tentar compor o que os dias vão descompondo.

Como uma das regras das short-sories é o final fechar o laço que se desatou no início, o desenlace não resolve o enredo. Mas não pode ser curta uma história que tem um arco temporal de quarenta e quatro anos e só agora parecer que está a começar. A vida é a mais extraordinária das histórias felizes.

márcia
rosas
innersmile
Belo concerto da Márcia, ontem, no auditório do conservatório de Coimbra, a inaugurar mais uma temporada das Quintas no Conservatório. Conhecia pouco e mal o trabalho da cantora e songwriter e fiquei rendido: à sonoridade, à composição, à qualidade serena mas séria das letras, aos arranjos, à simpatia e sobretudo à voz e ao canto. Não consegui fixar o nome dos cinco músicos que acompanharam a Márcia, mas fixei o de Filipe Cunha Monteiro, o director musical de serviço (e que, pormenor lateral, é companheiro ou marido da artista). O concerto serviu sobretudo para apresentar os temas de Casulo, o disco mais recente, mas visitou outros temas populares da Márcia, como A Pele que Há em Mim, popularizada através de um feliz dueto com o JP Simões, mas aqui interpretada a solo, e Cabra-Cega, que encerrou o encore. O público este atento e atencioso, mas acho que poderia ter sido um pouco mais entusiástico.