March 2nd, 2014

rosas

the monument's men + la grande bellezza

Em contagem regressiva para a noitada dos oscars (prognósticos só no fim do jogo, como dizia o outro), se a tanto ajudar não adormecer até lá; como praticamente deixei de beber café, conto com a ajuda de uma bola de carne e de um pão com passas e nozes para espantar o sono.

Entretanto aproveitei o fim de semana de uma chuva neurótica, para ver dois filmes.


Na sexta-feira fui ver The Monument’s Men, um filme realizado pelo George Clooney baseado na história verdadeira de um grupo de especialistas em arte recrutados pelo exército aliado para tentar preservar monumentos importantes durante a progressão das tropas desembarcadas na Normândia, e para encontrar e resgatar obras de arte saqueadas pelos nazis dos museus e colecções particulares dos países ocupados.

Trata-se de um filme simpático e fácil, mas se calhar demasiado simpático e fácil. O GC até nos tem apresentado filmes interessantes, mas este cede demasiado aos clichés e lugares comuns sentimentais. Mas como digo, é um filme simpático e por isso é impossível não gostar dele, mesmo que não seja muito. Até pelo elenco de luxo, que é assim uma espécie de Ocean’s Eleven para tempos de guerra.

Uma das personagens do filme é um soldado sexagenário e pequenino, Preston Savitz, que vemos ser recrutado num estúdio de ballet. Esta personagem é inspirada em Lincoln Kirstein, que na altura da guerra tinha menos de 40 anos (e fisicamente atraente), e que foi, antes e depois da guerra, uma figura importante da cena da dança nova-iorquina, tendo sido um dos responsáveis pela introdução dos bailados de Balanchine na América. Amigo de George Platt Lynes, WH Auden ou Jean Cocteau, Lincoln Kirstein era obviamente homossexual. Ou pelo meno bissexual, já que foi casado, durante 50 anos, com Fidelma Cadmus, irmão do pintor Paul Cadmus, que é um dos mais famosos pintores que trouxe para a sua obra a figuração de uma temática homossexual. Claro que no filme não há nenhuma referência à homossexualidade da personagem; mas intrigante mesmo é a razão porque George Clooney transformou um gay trintão e jeitoso num velhote de óculos e magrinho. Vá savoir...


No sábado, depois de nadar, fui ver La Grande Bellezza, do realizador Paolo Sorrentino, que é um dos candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Confesso que a princípio estava um bocado desconfiado do filme, aquilo parecia-me assim um bocado um teledisco a armar ao pingarelho. Mas depois rendi-me completamente, à medida que a personagem de Jep Gambardela se foi instalando, interpretado com classe por Toni Servillo, que consegue compor ao mesmo tempo uma personagem decadente e sedutora, cínica mas com uma espécie de honestidade interior que é desarmante.

O filme passa, pelo menos entre os críticos que não gostaram, por ser uma homenagem ao génio felliniano de La Dolce Vita, e de facto há qualquer do mestre nesse desfilar do belo e do bizarro, do sagrado e do profano, do lírico e do excessivo. Seja como for, é um filme belíssimo, muito divertido, com uma banda sonora fabulosa, e que se vê sempre num estado de deslumbre encantatório mas irónico!

Ou então sou eu que gosto imenso do cinema italiano, e este filme, com garras bem enfiadas não só no universo de Fellini, mas no de outros grandes mestres da comédia à italiana, é uma bela homenagem a Roma e ao seu cinema.