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memórias e dicionário
rosas
innersmile
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Este texto vem um bocadinho atrasado porque já o devia ter escrito há oito dias, quando ‘saíu’ o livro da Margarida Leitão Instantâneos: Fragmentos da Memória. Ou pelo menos na quarta-feira passada quando a revista Time Out trouxe um artigo, mais um, sobre a editora Index ebooks, a propósito da edição do Dicionário de Literatura Gay.

Mas o texto cá está, hoje, data em que é lançado o Dicionário, que tem o seguinte subtítulo explicativo: Livros, Autores e Referências da Literatura Lésbica, Gay, Bissexual, Transgénero e Queer de Portugal. O Dicionário foi organizado pelo João Máximo e pela Luis Chainho, os editores da Index, e à qual eu estou ligado, não apenas, e nem sobretudo, por terem editado um livro que eu escrevi, mas sobretudo pela amizade e pelo entusiasmo com que têm partilhado esta aventura, ou este sonho, de fazer uma editora de livros em formato electrónico que traduza e publique obras que tenham de alguma maneira ligação à tematica da homossexualidade.

O Dicionário tem um belíssimo texto introdutório da autoria dos coordenadores, e uma solução muito feliz, e organizada, passe o pleonasmo uma vez que se trata de um dicionário, obra estruturante por princípio, de apresentação das diversas entradas. A publicação da obra vai ser feita por fascículos, tendo este primeiro volume por objecto a letra A, e vai de A Alma Trocada, romance de Rosa Lobato de faria, a Aula de Poesia, uma colectânea de textos críticos da autoria de Eduardo Pitta.

Quanto ao livro da Margarida, ainda não tinha aqui falado dele por duas razões. Uma primeira mais prosaica: encomendei a versão do livro em papel, e estava à espera que ele chegasse para o fotografar. Não há-de faltar a oportunidade, garanto. A outra razão é mais séria: falar com profundidade do livro da Margarida é simultâneamente fácil e difícil, e pelas mesmíssimas razões: conheço muito bem estes textos da Margarida, li-os incontadas vezes, alguns inclusivamente antes dela os publicar no blog, comentei-os em privado, apenas com a Margarida, ou nos comentários do blog. São, na sua grande maioria, textos que me comoveram muito, e há até uns quantos que eu teria adorado escrever, de tal forma me revejo na sua escrita, mas principalmente na maneira de olhar a vida que esses textos captam. Não tenho, por isso, qualquer tipo de distanciamento em relação a eles, e desisto de qualquer tentativa de ser objectivo na sua análise.

Claro que há muitas maneiras de encarar este acto de escrever, e de escrever para os outros lerem. A minha (quando escrevia, coisa que não acontece há muito tempo) é pegar nas minhas experiências, umas vivenciais, outras puramente emocionais, e tentar resolvê-las através da distância mediadora da escrita. Fico sempre surpreendido quando alguma coisa que eu escrevo é apropriada por outra pessoa, que se revê, não tanto no texto e naquilo de que ele fala, mas sobretudo no modo como o texto ajuda a interpretar um conflito interior que temos com o mundo. E é precisamente neste ponto que eu não consigo ter distância em relação aos contos da Margarida. Não tanto porque saiba ou me deite a adivinhar os factos e as circunstâncias que lhes deram origem, mas porque consigo sentir o pulsar que corre neles, quase como quando pomos o dedo no pulso de alguém para sentir o batimento cardíaco: não vemos o sangue a correr, mas sentimos naquele pulsar que há um coração que bate lá dentro, lá no fundo.

Os contos da Margarida têm essa capacidade de poderem ser apropriados por quem os lê, de tal modo eles dão expressão a uma visão sensível do mundo, tentando captar-lhes a subtil cambiante dos sentimentos. Por outro lado, são muito sensoriais, trazem a memória (daí a adequação do título) daquilo que experimentámos através dos sentidos, são textos onde a cor, os cheiros, os tactos, os sabores estão sempre muito presentes. Além disso são textos muito bem escritos, de uma forma, como se dizia antigamente, escorreita, sem gangas nem rodriguinhos. Neste aspecto, é evidente que são escritos por quem tem muita rodagem de leitura, e confirmam a velha máxima de que é preciso ler muito para escrever bem.


O site da editora é o seguinte: www.indexebooks.com, onde poderão ser encomendadas gratuitamente ambas as obras. Escusado será dizer que recomendo muito a sua leitura.