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super 8
rosas
innersmile
Foi um fim de semana um bocado estranho. Na sexta-feira, acabei de ler um livro divertidíssimo e, por simples curiosidade, comecei a ler uma amostra de outro que tinha descarregado para o kindle. Passado pouco tempo estava a comprar o livro e passei o fim de semana, literalmente, a lê-lo. Hei-de voltar a falar destes dois livros, mas o que aqui interessa é que esta leitura compulsiva (falta-me um terço, pouco mais, de um volume com perto de quinhentas páginas) não foi de todo agradável: o livro, um ensaio biográfico, deixou-me numa intensa sensação de mau-estar, e eu passei o tempo todo agarrado ao livro mas a sentir-me incomodado. Parei no sábado para ir nadar e à noite para ir jantar com amigos; e no domingo para ir almoçar com os meus pais.

No fim do almoço a minha mãe falou-me novamente numa velha cassete de video para onde foram transcritos, há mais de vinte anos, um conjunto de filmes domésticos que tinham sido feitos pelo meu pai numa velhinha máquina de filmar Super 8. Apesar de eu ser um nabo em ligações e aparelhos electrónicos, consegui pôr a aparelho de vídeo a funcionar e, com alguns percalços pelo meio, vimos os filmes todos. A minha mãe estava radiante, e a cuidadora dos meus pais também, estava encantada. Durante todo o tempo que estivemos a ver os filmes, e apesar de ter corrido os estores da sala para aumentar o contraste da imagem, o meu pai esteve entretido a desmontar e a remontar um velho relógio de cozinha; de cada vez que lhe chamava a atenção para os filmes ele ficava muito admirado, sem saber do que estava a falar, olhava para a tv dois segundos, e voltava ao relógio. É incrível, filmes que ele fez, com a mulher (por quem ele sempre foi e é cada vez mais obcecado) e os filhos, ele adorava a máquina de filmar, e agora está tudo completamente varrido da sua memória.

Tanto quanto consegui perceber, o filme mais antigo é de quando eu tinha um ano (há uma imagem do bolo do primeiro aniversário) e o mais recente de quando eu teria, quando muito, uns dez anos. A maior parte dos filmes foi feita em Lourenço marques, nos anos antes de 1967, e há uns dois ou três dos tempos de Nampula. Há um filme de uma viagem dos meus pais à África do Sul, a termas, de passeios à Ponta do Ouro, das iluminações de natal à noite em LM, do Carnaval na cidade, e já de Nampula, de passeios para competições de Tiro ao Alvo (a minha mãe era exímia praticante), de umas férias no Lumbo, que inclui imagens da Ilha de Moçambique, e de uma tarde na represa próxima de Nampula, com uns amigos dos meus pais. E, claro, pelo meio, há cenas domésticas, comigo, com o meu irmão com os meus primos, e mais familiares. Há duas imagens, demasiado rápidas e escuras, da minha bisavó. A minha mãe é a estrela da companhia, mas não admira, era uma mulher muito bonita e elegante. E ainda é!

Vi os filmes com muita alegria, claro, mas também com muita angústia. Eu não sou saudosista, nem vivo no passado, nem acho que o passado é que era bom. Antes pelo contrário, tenho sempre o sentimento irracional de que o melhor da vida ainda está para vir, além de ter consciência de que tenho uma vida boa e afortunada. Mas o passado provoca-me uma sensação de perda irreparável que, ela sim, é angustiante. Ao ver estes filmes da minha infância, os meus pais tão novos, o meu irmão ainda um menino, não sinto propriamente saudades, ao estilo de ‘ai-tão-bom-que-isto-era!’, até porque, para falar com franqueza, a minha memória destes tempos é praticamente nula; mas há uma sensação dolorosa de querer estender a mão para agarrar qualquer coisa que está tão próxima fisicamente, porque está dentro de mim, e irremediavelmente não conseguir. Querer perceber exactamente quem era aquela pessoa, aquele puto que está nas imagens, mas nunca conseguir, quase a poder tocar numa coisa e ela escapar-me por entre os dedos.

Tenho de saber se é possível fazer a transcrição destes filmes de vídeo para suporte digital. Já não os via há muitos anos, e ontem apercebi-me de que eles são um dos maiores tesouros que tenho.