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MANHÃ
rosas
innersmile
Preparava o chá quando a foram buscar. Dois soldados apareceram junto à palhota que lhe tinha sido destinada e anunciaram que a vinham buscar. O seu estatuto valera-lhe uma habitação própria, fora dos barracões onde se amontoavam todos os outros, mas nunca percebera se esse estatuto tinha sido decidido pelos do topo ou se tinha sido decisão do chefe do campo.

Tinha-se levantado muito cedo, mal a aurora despertara, ainda antes de se começar a ouvir o barulho da selva, para lá da cerca de arame farpado. Lavou-se com a água que sobrara da véspera e acendeu uma pequena fogueira, onde pousou a chaleira. Quando a água ferveu, deitou lá para dentro as folhas secas, e esperava que o chá abrisse quando chegaram os soldados.

No tom autoritário mas sempre um pouco tímido que usavam quando se lhe dirigiam, os soldados anunciaram, titubeando o português, que era para para ela os acompanhar, ordens superiores. Perguntou-lhes se podia beber o chá, e eles, impreparados para a pergunta, ficaram sem saber o que responder.

Dividiu a bebida por três canecas de esmalte, açucarou-as, e estendeu-lhes duas delas. Um dos soldados fez o gesto para se sentar num dos bancos baixos, mas o outro deu-lhe um pontapé leve, chamando a atenção para a desadequação do comportamento. Ela sentou-se a beber o chá, enquanto eles, de pé, sopravam com os lábios grossos o fumo que exalava ao ar fresco da manhã.

Passou as canecas por água, deixou-as voltadas para baixo, a escorrer, e entrou para a palhota. Os soldados encostaram-se à umbreira da porta, voltados para fora, à espera. Ela despiu a bata leve com que dormia. Vestiu uma camisa branca de linho lavrado, e colocou a capulana por estrear, comprada na Ilha, há muitos anos, e que guardara à espera deste dia. Ia calçar as chinelas rasas, de couro negro, mas depois decidiu ficar descalça.

Prendeu o cabelo num rolo, e, depois de deitar um olhar desprendido ao interior da palhota, juntou-se aos soldados, com um gesto da cabeça que indicava que estava pronta, podiam seguir. Avançaram os três pelo caminho que bordejava a selva, rente à cerca. No terreno atrás do pequeno aquartelamento, quando eles surgiram do caminho, os soldados do pelotão reduzido que aguardavam na sombra frondosa de um cajueiro, mexeram-se nervosos, e começaram a preparar as armas. O chefe do campo saiu do edifício, acompanhado de um funcionário do partido que se deslocara da capital provincial de propósito para o acontecimento. Trocaram algumas palavras com ela, que se manteve serena e altiva. Os dois soldados que a escoltaram desapareceram atrás da esquina do quartel.

Ela encostou-se ao muro alto feito de sacos de areia empilhados. De rosto fechado, manteve os olhos abertos, na direcção do pelotão que se alinhava à sua frente, mas sem ver os soldados, o olhar perdido na mancha verde do limiar da selva. Murmurou em voz muito baixa uma avé-maria, a oração que aprendera em português, aos sete anos de idade, no seu primeiro dia no colégio das freiras que a recolheram depois do ataque dos soldados portugueses que dizimara a aldeia onde vivia com os pais.

Depois, e como desde há muito tempo estava preparada para fazer, pensou intensamente nos dois netos, que não via há dois anos, desde que tinha sido presa e deslocada para o campo. Inevitavelmente, como acontecia sempre que pensava neles, um sorriso subtil suavizou-lhe os lábios.
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