?

Log in

No account? Create an account

barbárie
rosas
innersmile
Li aqui há dias na edição electrónica do Guardian uma reportagem sobre o nível de destruição provocado pela guerra civil na Síria. Com impressionantes fotografias de antes e depois, destacava-se a cidade de Aleppo, onde o nível de destruição foi massivo. Fiquei particularmente tocado porque reconheci alguns dos locais onde estive em abril de 2010, escassos meses antes de começar a guerra. A Grande Mesquita dos Omíadas, lindíssima, é uma ruína, com o minarete do século XI destruído, subsistindo as fontes do pátio entre destroços (que intensa recordação: pequenos grupos de mulheres a vigiar os bandos de crianças que brincavam nas fontes, o pátio rutilando ao sol, cheio de peregrinos e turistas). As ruas do souk, onde comprei pistachios e sabonetes, e onde me esforcei por me perder, sem o conseguir, parecem trincheiras de guerra destruídas e abandonadas.

Essas férias na Síria correram-me muito mal, porque estive sempre doente, mas Aleppo é uma das poucas recordações felizes desses dias. Depois de uma tarde a passear na cidade velha e no souk, lembro-me de estar sentado no muro da cidadela e de os miúdos virem meter conversa, sem ser para pedinchar ou vender, sob o olhar atento e benevolente das mães. Não me costumo sentir à vontade a tirar fotografias às pessoas (também não gosto que os turistas me fotografem quando estou na minha terra), mas aqui eram as mães que nos pediam para fotografar as crianças; a elas não, recusavam com simpatia e determinação, mas às crianças sim. É tristíssimo olhar as minhas fotos dos locais e pensar na destruição. Mas olhar as fotos de crianças, que teriam dez ou doze anos, e pensar no seu destino, dá-me vontade de chorar.

No dia seguinte a Aleppo, de regresso a Damasco, parámos no Krak des Cavaliers, uma imponente fortificação do tempo das cruzadas; leio agora que pelo menos uma das torres foi destruída. Mais a sul, já perto da capital, parámos em Ma’loula, um enclave cristão, e visitámos os conventos de São Sérgio e São Baco, onde ouvi rezar um Padre-Nosso em aramaico, a língua de Jesus, e de Santa Tecla. Ma’loula foi, há poucos meses, palco de violentos e repetidos combates entre jihadistas e forças governamentais, os conventos históricos foram usados como campo de batalha, as freiras foram raptadas ou fugiram. Algumas das edificações mais antigas do convento de São Sérgio e São Baco, algumas delas remontando aos primórdios da cristandade, bem como os seus ícones mais preciosos, perderam-se para sempre.