?

Log in

No account? Create an account

dallas buyer club
rosas
innersmile
Apesar da realização convencional, o filme do canadiano Jean-Marc Vallée (autor de C.R.A.Z.Y., um filme que nunca vi, mas que é presença habitual nos sites de cinema LGBT) tem mais pontos de interesse do que o magnífico trabalho do actor Matthew McConaughey ou a denúncia das manigâncias da indústria farmacêutica. O filme usa um truque, que é pôr um heterossexual homofóbico que sofre de sida no centro da intriga, para falar menos da doença do que do seu impacto social.

Uma das notas interessantes é a focalização nos chamados buyers clubs, associações de doentes que usavam esse expediente para contornar a proibição da comercialização dos medicamentos para a sida; como as drogas podiam ser importadas para consumo próprio (não eram ilegais per se, apenas a sua comercialização o era), os buyers clubs importavam drogas para os seus associados mediante o pagamento de uma jóia de inscrição. Como é referido no filme, os primeiros buyers clubs foram formados por doentes homossexuais, que como se sabe foram as primeiras vítimas, ou pelo menos as mais visíveis, mas também as mais desprotegidas, da epidemia.

Outro aspecto curioso tem mais a ver com a própria dramaturgia do filme, nomeadamente com a relação entre a personagem de McConaughey e a do seu sidekick, o transgénero de Jared Leto. Através desta personagem, a de McConaughey faz a sua travessia em direcção à aceitação da homossexualidade, em que a amizade e a solidariedade acabam por vencer face ao preconceito homofóbico.

Todos estes aspectos conferem ao filme uma voz muito interessante na análise do efeito um pouco paradoxal que a sida teve na visibilidade dos homossexuais e até no avanço dos processos de reconhecimento de direitos e igualdades a que assistimos nas últimas duas ou três décadas. É que se num determinado momento a sida pareceu reforçar o preconceito homofóbico, que a identificava como uma espécie de castigo divino, por outro obrigou a colocar a homossexualidade no centro do debate e deu-lhe uma visibilidade mediática que nunca havia conhecido. Muito por causa da sida, ou por efeito dela, de repente os gays estavam em toda a parte, e passou a ser muito complicado fazer de conta que a homossexualidade era um fenómeno raro e excêntrico próprio de bichas amaricadas e bas-fonds mais ou menos marginais.

Não deixa de ser irónico, cruelmente irónico, que parte da cidadania plena que os homossexuais hoje conhecem tenha a ver com o flagelo da sida, com um carácter mais ou menos ignominioso que a doença fez recair sobre os homossexuais, e sobretudo com o incontável número de pessoas, em grande parte jovens, que morreram vítimas da epidemia. Ao ilustrar e clarificar um aspecto desta história, e ao fazê-lo no quadro mainstream do cinema popular sem todavia abdicar do seu conteúdo político, Dallas Buyers Club inscreve-se numa tradição de reflexão sobre a sida e os seus efeitos e impactos, que o cinema tem sabido honrar.
Tags: