?

Log in

No account? Create an account

a co-adopção e o inferno
rosas
innersmile
Há perto de um ano, em maio de 2013, escrevi aqui regozijando-me pelo facto de a Assembleia da República ter aprovado na generalidade a lei que permitia a co-adopção por casais do mesmo sexo, ou seja, a possibilidade de o cônjuge do mesmo sexo co-adoptar o filho natural do seu cônjuge. Parecia-me uma coisa tão elementar, que o texto que aqui escrevi era a manifestar a minha perplexidade pelo facto de haver muitas pessoas, algumas delas bastante respeitáveis, que se opunham a essa lei.

O ponto é que os meses foram passando e o projecto de lei, repito: aprovado na generalidade pela maioria dos deputados, nunca foi discutido e votado na especialidade no parlamento, e por conseguinte nunca passou a lei! Os deputados sempre foram encontrando expedientes para ir adiando a discussão do projecto. Até que um grupo de deputados da JSD desencantou a ideia peregrina de “suspender” a validade da lei já aprovada na generalidade, opondo-lhe uma proposta de referendo sobre o mesmo tema. A ideia desta proposta era, como foi assumido por toda a gente, unicamente adiar para as calendas gregas o projecto de lei já aprovado, evitando a sua mais que provável aprovação caso fosse à votação final!

Ou seja, uma fraude, uma batotice! E o facto é que, ou por discordarem frontalmente da estratégia e dos seus objectivos, ou por acharem que um referendo sobre o tema não seria oportuno neste momento, ou simplesmente por acharem o expediente pouco digno da actividade parlamentar, os restantes partidos distanciaram-se desta proposta do PSD. Aliás, muitos deputados do próprio PSD se manifestaram publicamente contra a iniciativa.

Entretanto o PSD impôs ao seu grupo parlamentar a férrea disciplina de voto, prendendo-os ao sentido de voto oficial, o que levou vários deputados a ausentarem-se do hemiciclo na altura da votação ou a apresentarem declarações de voto. O CDS, por não querer provocar turbulência com o parceiro de coligação governamental, impôs a abstenção igualmente com disciplina de voto. Os votos contra a proposta dos restantes grupos parlamentares não foram suficientes para chumbar a proposta.

Conclusão: hoje de manhã, o parlamento português aprovou uma proposta de referendo, que muito provavelmente nunca se irá realizar (esperemos que não, é um absurdo, mas isso é outro tema), apenas com o intuito de impedir a aprovação de uma lei que reconhecesse a possibilidade de alguém casado ou unido de facto co-adoptar os filhos naturais do seu cônjuge ou companheiro.

Ou seja, se houver por aí uma criança, e há muitas, mesmo muitas, eu conheço algumas, que viva com o seu único progenitor e o respectivo conjuge ou companheiro, e na hipótese infeliz de esse progenitor falecer, essa criança deverá ser subtraída à pessoa que ama e reconhece como pai ou mãe, recolhida pelo estado e institucionalizada, apenas porque um grupo de pessoas, em nítido abuso de poder da posição de vantagem que a sua condição de deputados lhes confere, utilizou um expediente para poder impor o seu preconceito moral.

Imoralidade por imoralidade, espero que haja um inferno qualquer onde esses imbecis ardam em vida.
Tags: