January 13th, 2014

rosas

multiplex

O ponto alto do meu fim de semana foi a ida a Estarreja, no sábado à noite, para assistir, no Cine-Teatro local, à apresentação de Multiplex, de Rui Horta. Foi, tanto quanto me consigo lembrar, a primeira vez que vi um trabalho deste coreógrafo, e confirmei uma ideia que já trazia, a de que as suas propostas são muito estimulantes, quer do ponto vista sensorial, digamos assim, quer no aspecto intelectual.

Antes da função, Rui Horta veio falar aos espectadores, advertindo de que aquilo a que iríamos assistir não era exactamente um espectáculo de dança, mas mais de teatro. Na conversa com os espectadores a que se disponibilizou no final, voltou-se a abordar a mesma tónica. Apesar de perceber a sua intenção, parece-me que Multiplex é, ainda assim, um espectáculo de dança, em que se experimentam os limites de uma determinada linguagem coreográfica, e se tenta perceber como é que o corpo pode ocupar um espaço físico, movido pelo som da música, ainda que a música seja, na maior parte do tempo, a das palavras.

Esta discussão tem a ver, naturalmente, com o tema da peça: uma adaptação muito sintética, mas essencial e conseguida, das Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, que Rui Horta trabalhou, conforme nos contou no final, ao arrepio dos direitos de autor, já que a autorização para a utilização do texto nunca chegou por parte dos detentores dos direitos da obra de Yourcenar. Multiplex é então uma leitura, uma perspectiva, do texto de Yourcenar, ou, mais propriamente, da personagem do imperador Adriano tal como foi fixada nessa obra-prima da literatura universal.

Ao enorme fascínio pelo discurso de Adriano, e pelo seu testamento da complexidade tantas vezes contraditória da natureza humana, Rui Horta acrescenta um notável trabalho de cenografia, criando uma página em branco no centro do palco, onde se vão inscrever, num exercício de preto-e-branco, ou de preto-no-branco, quer a representação do discurso, que as próprias palavras. Na conversa final, Rui Horta confirma que o material de que a folha de papel é feita, é mesmo farinha, que é usada como cenário, mas também como adereço cénico, e como motor narrativo-temporal da própria peça: aquilo que a princípio era uma folha de papel vai cobrindo lentamente todo o espaço cénico, à medida que o inverno da velhice vai preparando a morte do imperador.

Este espectáculo é, como sempre acontece, indissociável dos seus intérpretes: o actor Pedro Gil e a bailarina Sivia Bertoncelli. Pedro Gil é um assombro, não só pela maneira como veste a personagem, e como lhe dá voz, mas também pelo modo como empresta o seu corpo à tal linguagem de dança de que falei atrás, e que, na minha opinião, marca a peça de Rui Horta. Silvia Bertoncelli, a bailarina que não dança, é um elemento fundamental da peça, pelo rigor que empresta à contra-voz do imperador, quer seja repetindo, em eco, as suas falas em italiano (e que nos convoca de imediato para a cidade de Roma - que, num dos momentos de maior êxtase visual do espectáculo, é desenhada, ou esculpida, a luz e golpes de mão, na folha de farinha), quer vestindo personagens essenciais do texto, como Antinoo ou Marco Aurélio, a quem, no livro de Yourcenar, a carta de Adriano se destina.