January 6th, 2014

rosas

12 years a slave (5*)

12 Years a Slave não terá a mesma pulsão tensa que tinha o filme anterior de Steve McQueen, Shame. É, de certa maneira, um filme mais convencional, pelo menos do ponto de vista narrativo. Mas, mesmo assim, é um ‘no-bullshit movie’, que afirma a imensa eficácia do seu realizador, a sua extraordinária capacidade de adequar o discurso narrativo à sua intenção, provocando no espectador um choque emocional que o obriga a mudar de lugar: depois deste filme, é impossível mantermo-nos na mesma em relação à história e à memória da escravatura.

Tenho visto por aí referências a uma certa dicotomia entre este filme e o Django Unchained, do Tarantino, cada qual com os seus apoiantes e os seus detractores, e como se apenas pudesse haver uma única abordagem ao que foi o fenómeno da escravatura. Claro que os dois filmes são muito diversos, porque correspondem naturalmente a universos criativos diferentes, mas podemos aprender muito com ambos, e não percebo muito bem o tipo de raciocínio que pressupõe sempre a oposição, o conflito entre alternativas.

De uma forma geral, a uma visão mais espectacular de Tarantino, em que a perspectiva sobre a escravatura é uma espécie de descida aos infernos, é oposta uma certa caução de seriedade do filme de McQueen. Parece-me pobre. Apesar de reconhecer que 12 Years a Slave é um filme mais convencional, não deixa de ser mais ou menos óbvio que McQueen não é um realizador convencional, e que o seu modo de fazer filmes continua a ter muito mais a ver com a sua visão pessoal do que com a submissão às regras de um sistema mais ou menos industrial.

Parece-me que o contributo maior do filme de Steve McQueen para a abordagem da escravatura reside na sua negação enquanto sistema económico válido. Muitas vezes a nossa abordagem histórica tende a ceder à contextualização, em que certos horrores da história da humanidade são desculpados (quando não mesmo branqueados) em nome de determinados contextos socio-económicos: a escravatura é aceite porque era assim que a sociedade e a economia funcionavam, e isso como que a legitima. O que o filme de Steve McQueen vem dizer é que a escravatura é sempre perversa, é sempre corruptora e desviante, e por isso nunca é aceitável uma perspectiva boa, ou ao menos redentora, do fenómeno.

A circunstância de ter havido recentemente três filmes de grande circulação comercial sobre a escravatura (além dos dois referidos, ainda o Lincoln de Spielberg) pode-nos levar a pensá-la como um fenómeno estritamente americano, no sentido da importância do seu contributo para a construção da nação norte-americana. Para além de provar que o cinema norte-americano, mesmo o mais comercial, tem uma espantosa capacidade de reflectir sobre os “assuntos sérios”, nomeadamente os mais penosos e desagradáveis, não devemos esquecer que a escravatura nunca foi, longe disso, um fenómeno exclusivamente norte-americano, e que nós os portugueses em particular, teríamos muito a ganhar se tivéssemos a mesma capacidade de olhar assim de frente e de maneira desassombrada os cadáveres escondidos no armário da nossa história, mesmo da mais recente.

Só uma nota final para referir que muita da eficácia, e da sua capacidade de nos comover e desassossegar, de 12 Years a Slave, passa pelo trabalho do actor principal, Chiwetel Ejiofor.