December 20th, 2013

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inside llewyn davis

Apesar de hoje serem um dos nomes mais seguros da indústria norte-americana de cinema de entretenimento e bilheteira, os irmãos Coen conseguem continuar a fazer filmes pessoais e que, de alguma maneira os afirmam enquanto autores, e não meros artífices da indústria. Inside Llewyn Davis é um desses filmes, filmado fora dos excessos do grande espectáculo, e que se apresenta como uma reflexão sobre a auto-afirmação artistica e a via cruxis do reconhecimento (mais do que do sucesso), ao mesmo tempo que olha, com ironia e ternura, para a cena folk que emergiu em Nova Iorque, no bairro de Greenwich Village, na viragem das décadas de 50 para 60, e que iria marcar definitivamente o panorama da musica pop.

Mais do que um argumento, o filme dos Coen baseia-se numa espécie de anedota, baseada de forma muito solta, na vida, e nas canções, de Dave Van Ronk. Ao fim de uma semana de peregrinação para tentar impor as suas canções, Llewyn abandona o palco do pequeno clube que lhe dá vaga, para ser substituído por um cantor folk, de guitarra na mão e armação para harmónica pendurada ao pescoço, que canta com voz anasalada. O improvável sidekick de Llewin é um gato que, vamos descobrir no final do filme, se chama Ulisses, no que constitui uma curiosa referência para outro filme dos Coen, O Brother Where Art Thou, que era baseado na Odisseia de Homero.

Outro ponto de contacto com O Brother é o modo como os Coen tratam a música. Sem ser propriamente um musical, Inside LD faz da música um dos protagonistas maiores do filme, respeitando a sua integridade e trazendo-a constantemente para o primeiro plano da narrativa. Não admira que a produção musical do filme seja do T-Bone Burnett, que tinha colaborado com os Coen no O Brother, e que é um dos maiores músicos e produtores da cena da música popular americana.

Apesar das presenças de Justin Timberlake e da adorável Carey Mulligan, a maior parte dos actores não são grandes estrelas, nomeadamente o Oscar Isaac no papel do protagonista, o habitual John Goodman ou, numa aparição breve, o F Murray Abraham.
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Deixa lá Más novas

A editora Sextante optou por publicar em conjunto os dois primeiros volumes dos cinco que constituem a saga de Patrick Melrose, da autoria de Edward St. Aubyn, e ainda bem que o fez: se dois livros de seguida sabem a pouco, que faria apenas um! Sim, estou ansioso para ler os restantes três livros da série.

Em Deixa Lá acompanhamos um dia na casa do sul de França dos Melrose: o pai David, a mãe Eleanor e Patrick, com cinco anos, e o protagonista. O livro é a sátira mais poderosa que eu conheço à upper class inglesa (David podia ter sido primeiro-ministro; não foi, mas o verdadeiro poder não está em ser, mas em poder ser), e escrito com uma verve muito ácida e divertida. A narrativa é dominada por um acontecimento monstruoso, mas tudo é contado com a indolência perigosa de cobras venenosas ao sol.

Más Novas acompanha os dois ou três dias da viagem que Patrick Melrose, com vinte e poucos anos, faz a Nova Iorque para ir buscar o corpo do pai, que morreu inesperadamente. Um verdadeiro pesadelo em sessões contínuas, em torno das adições de Patrick a tudo o que são drogas, com a heroína e a cocaina a estrelarem a companhia. Pelo menos desde William Burroughs, nunca tinha lido nada assim tão alucinante, nos vários e mais desviantes sentidos que a palavra pode ter.

Os livros de St. Aubyn têm sido objecto de rasgadíssimos elogios, nomeadamente do Miguel Esteves Cardoso, que dedicou a Aubyn uma das suas crónicas do Público. Por uma vez o hype é inteiramente merecido. Os livros são de tal maneira envolventes que eu confesso que de vez em quando tinha de parar para limpar a cabeça e ganhar distância em relação ao tremendo impulso auto-destruidor que norteia a narrativa.

Numa das blurbs do livro, cita-se a Zadie Smith na seguinte frase: “A verve de Wilde, a leveza de Wodehouse e a acrimónia de Waugh. Brilhante!” Acho que define muito bem a escrita de Edward St. Aubyn. Acrescentaria apenas, para dar ênfase: brilhante!