December 16th, 2013

rosas

peter o´toole

Peter O’Toole não foi actor de um só papel, mas há um personagem que foi de um único actor, o Lawrence de Peter O’Toole. Não sei se o mesmo se passará para as younger generations, mas suponho que entre as pessoas de uma certa idade, pelo menos entre as que gostam de cinema, que cresceram a ver cinema, no escuro das salas rasgado por focos de luz e em ecrãs maiores do que os nossos olhos, não há ninguém que não ame o Peter O’Toole. Porque havia nele uma grandeza, uma nobreza, que era feita tanto de superioridade como de uma certa tragédia. Provavelmente isso tinha a ver com a sua beleza quase insuportável, com o olhar que espelhava o céu. Num dos filmes que fez já nos anos 80, My Favourite Year, o personagem de Peter O’Toole diz a certo ponto “I’m not an actor, I’m a movie star”. E O’Toole, que era um actor, era também uma enorme e fulgurante estrela de cinema, não no sentido de ídolo das matinés, não por arrastar multidões, não por ser um nome seguro das bilheteiras, mas simplesmente porque no ecrã, era maior do que a vida, e com isso fazia-nos sonhar.



Podia escolher milhares de outros clips do YouTube (pedaços de filmes, participações em talkshows, entrevistas, poemas ditos com a sua voz), podia ter escolhido o seu fabuloso discurso de agradecimento do Oscar honorário que recebeu em 2003, e no qual, logo a abrir, profere a frase “Always a bridesmaid, never a bride, my foot!”, a gozar, sobretudo consigo próprio, com o facto de nunca ter recebido a estatueta por um dos seus magníficos desempenhos; e logo a seguir arranca para um discurso elegante e humilde, como se fosse um actor qualquer grato pelo reconhecimento que recebera.

Mas escolhi um clip que está há muito tempo na minha playlist de preferidos, gravado por ocasião de um jogo qualquer de rugby, em que jogava a equipa irlandesa de que o Richard Harris era fã e tinha sido jogador. Peter O’Toole, para não ficar atrás de Harris que trouxe o seu antigo jersey de jogador, saca a certa altura da gravata, do clube de cricket de Galway, a sua região natal.

Não são só dois velhos bebâdos, que aparecem neste clip. São dois ébrios, é certo, mas há qualquer coisa de antigo e misterioso nos seus rostos e nas suas vozes, há o peso da vida, das vidas de cada um, e da vida ela própria. Há uma sabedoria qualquer, talvez a sabedoria de que a morte está próxima, mas mesmo assim faz sentido continuarmos a cantar e a dançar, e a rirmo-nos na sua face. Há, sei lá, uma dor qualquer, a dor comovente de estarmos vivos, e isso ser tragédia suficiente para passarmos a vida ébrios. Ou isso tudo, ou então apenas duas velhas movie stars, a fazerem o que sabem fazer melhor: a fazerem-me sonhar.