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lourenço marques revisited (1955-1976)
rosas
innersmile
19236899

Vale a pena transcrever o Esclarecimento que o autor antepôs a este Acta Est Fabula, Memórias III Lourenço Marques Revisited (1955-1976):

" No arquitectado plano de cinco volumes, que cobrirão o total do que tenho a dizer, nas minhas " memórias", este é o terceiro volume. O primeiro, publicado em 2012, cobriu o período que vai de 1930 ( ano do meu nascimento) a 1947 ( ano da minha partida , de Lourenço Marques para Lisboa). O segundo volume, ainda não escrito, deverá cobrir o período de 1947 a 1955, os oito anos ( com uma interrupção pelo meio), que estive em Portugal, a fazer o curso de engenharia e o serviço militar. Este terceiro volume, deverá abranger o tempo que vai de 1955 ( regresso a Moçambique) até 1976 ( saída definitiva de Moçambique). O quarto abrangerá o arco do tempo que parte de 1976 até 1995 ( vida no estrangeiro, África do Sul, Suécia e Inglaterra). Por fim, o 5º e último volume, se para tanto me chegar a vida, abrangerá a vida, em Portugal, após o regresso de Inglaterra, em 1995.
A razão de saltar do primeiro para o terceiro volume ( sem redigir o segundo) é simples: tenho 83 anos e nada me garante que terei vida para redigir os ambiciosamente sonhados 5 volumes. Gostaria em todo o caso, de poder deixar escritos os tomos que dizem respeito à minha vida em África. Foi lá que comecei, mesmo que não vá ser lá que acabo. Esses dois livros, eu devo-os à cidade de Lourenço Marques e ao espaço africano e ao mar africano e à luz africana. Faço questão de pagar essa dívida. O resto será feito se os deuses deixarem."


Acho que nada melhor do que as palavras do próprio Eugénio Lisboa poderia deixar tão claro muito do que é a essência deste livro, uma evocação, sob a forma de projecto memorialístico, do que foi uma vida (do que era a vida) passada na cidade de Lourenço Marques, nos vibrantes, ainda que contraditórios e derradeiros, dias da presença portuguesa em Moçambique.

Um ano depois de ter lido o primeiro volume das memórias de Eugénio Lisboa, descubro que este terceiro volume das memórias me vem prestar uma espécie de serviço público pessoal, uma vez que me traz um relato na primeira pessoa, rico e impressivo, de uma época e de vivências que há muito me espicaçavam o interesse e a curiosidade. Protagonistas maiores das cinco centenas de páginas das memórias, o próprio autor, como é óbvio, e o seu núcleo familiar e profissional, mas também outras personagens marcantes da vida cultural e intelectual lourenço-marquina, como os poetas Rui Knopfli e José Craveirinha ou o advogado Carlos Adrião Rodrigues, mas também, por exemplo, a evocação do grande poeta Reinaldo Ferreira.

Naturalmente, a perspectiva de um relato é sempre de quem o conta, e as memórias têm essa caracteristica de contar as coisas, não tanto como elas se passaram, mas como guardamos delas memória (hence the name!). Mas o relato de Eugénio Lisboa é demasiado importante para passar em branco, e fica, de agora em diante, como um dos mais notáveis e informados testemunhos do que foi a vida cultural e intelectual em Lourenço Marques nas décadas de cinquenta, sessenta e setenta.