December 10th, 2013

rosas

rainhas da noite

z1507-1

João Paulo Borges Coelho venceu, em 2009, o prémio Leya, com o romance O Olho de Herzog, o que lhe trouxe uma bem merecida visibilidade. Com seis romances publicados (dos quais só não li um), dois volumes de contos, e duas novelas, trata-se seguramente de um dos nomes mais interessantes da literatura em língua portuguesa contemporânea, e o seu contributo passa largamente as fronteiras da literatura moçambicana.

Este mais recente, Rainhas da Noite, é, quer na sua complexidade narrativa, quer na escolha e no tratamento dos temas, um dos seus melhores romances. Começa logo por ter um ponto de partida daqueles bem instigantes: alguém, o narrador, interessa-se, numa banca de rua em Maputo, por um livro de Rui Knopfli. O vendedor, percebendo o interesse do possível comprador, eleva o preço. Depois de muito jogo e alguma discussão, o vendedor junta ao livro de Knopfli um velho caderno manuscrito, a que o narrador, embora a princípio indiferente, acaba por dedicar uma atenção obsessiva.

Esse caderno foi escrito na década de cinquenta do século passado (antes da eclosão da guerra colonial), em Tete, pela jovem mulher de um engenheiro contratado para trabalhar nas minas de carvão, como quadro da companhia belga concessionária da exploração da mina. Moatize, como a jovem mulher descobre, era um inferno: por causa do calor excessivo, mas também muito pelo ambiente opressivo que se vivia sobretudo na comunidade ligada à empresa, por razões políticas, mas também de organização e ascendente social.

O livro vai intercalando excertos do caderno, com as peripécias do narrador, na sua investigação por mais pormenores ligados àquela história fascinante que por acaso (será?) lhe veio parar às mãos. Personagem central do romance, no meio da pequena galeria de personagens femininas que dominam a história e dão razão ao seu título, está um antigo criado de casa de Moatize, que mais tarde foge para se juntar aos nacionalistas moçambicanos, e que ressurge, velho e frágil, no Maputo actual, carregando o fardo de uma antiga história de que ainda hoje sente necessidade de resolver.

O autor demonstra enorme segurança narrativa, uma grande empatia pelas suas personagens, e a escrita colorida e viva que já era a marca dos seus livros anteriores. Não posso dizer que este seja o meu livro preferido de Borges Coelho, e apenas pela razão de que amo profundamente alguns dos seus livros anteriores (o Dr. Valdez, a Rua 513.2, e os dois volumes dos Índicos Indícios, são esses), mas seguramente é um dos seus melhores e mais bem conseguidos (melhor, na minha opinião, do que o que lhe valeu o prémio Leya).