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virgílio de lemos
rosas
innersmile

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Faleceu na passada sexta-feira o poeta Virgílio de Lemos. Natural da ilha do Ibo, no norte de Moçambique (no mesmo ano em que nasceu o meu pai), formou, juntamente com outras poetas como Craveirinha, Rui Knopfli ou Noémia de Sousa, o núcleo fundador daquilo a que poderemos chamar a primeira geração de poetas de Moçambique. Colaborou em vários, se não em todos, os jornais e revistas onde os poetas de Moçambique foram construindo a sua identidade: Msaho, o Brado Africano, Voz de Moçambique, por aí fora. Esteve preso, e foi julgado, por, em plena década de cinquenta, ter chamado, num poema, 'capulana vermelha e verde' à bandeira portuguesa. A Pide era incapaz de compreender que o termo capulana não era pejorativo, antes pelo contrário. Apesar de absolvido, saiu de Moçambique e acabou por se fixar em Paris, onde viveu até morrer. Virgílio de Lemos foi dos primeiros poetas moçambicanos que li, e tenho dois dos seus livros, infelizmente nenhum deles sendo Poemas do Tempo Presente, a sua primeira obra.

CANTEMOS COM OS POETAS DE HAITI

Cruzo os braços, Baby, e deixo-me ficar
Apreensivo e triste, meditando:
Tu, Baby, e os poetas nossos irmãos
Que escrevem cânticos no Haiti,
Sabem da vida incerta e vazia
Dos negros das ilhas e Américas
Dos que sofrem em África e Oceânia.

Lembras-te daquele poema universal
Que falava de desumanidade?
Lembras-te dos segredos nas entrelinhas
Dos poemas verticais da Noémia de Sousa
Sempre em papel amarelo?

Ah, se tudo fosse como nos sonhos belos
Cheio de romance e fantasia doce
Não haveria, Baby, o desespero
Nos cânticos dos poetas de Haiti
Nem segredos havia, fundos de angústia
Nos poemas verticais de desespero!

Ah, nem tudo, Baby, nem mesmo eu
Faríamos da poesia um cântico triste
E só falaríamos de paz, amor,
E numa sede constante do azul do céu!
Mas se é dor o mundo que nos cerca,
Cantemos com os poetas de Haiti
Uma canção amarga que se não perca,
Cantemos em uníssono, porque lá ou aqui,
Os segredos são iguais, fundos de angústia,
E os poemas verticais, também de desespero.
Virgílio de Lemos