December 6th, 2013

rosas

madiba

Cresci a admirar duas personagens que se tornariam nos meus grandes heróis do meu tempo: Churchill e Gandhi. Ambos foram exemplos de resistência: Churchill foi o mais improvável dos heróis quando levou os ingleses a resistir ao jugo imperial nazi, e oferecendo ao mundo a ideia de que era possível derrotar Hitler. Gandhi porque mostrou que a liberdade também se obtém pela via pacífica, e que um homem magrinho, despojado ao ponto da quase nudez, e de mãos vazias, pode arrastar consigo as multidões que fizeram tombar o maior império colonial do mundo, aquele onde, afirmava com orgulho, o sol nunca se punha.

Ambos viveram e conquistaram o seu lugar na história antes de eu ter nascido: Churchill morreu quando eu era muito criança, e Gandhi bem antes de eu ter nascido. Mas a vida deu-me a oportunidade magnífica de ter sido contemporâneo daquele que se tornaria no outro meu grande herói do meu século XX: Nelson Mandela.

Como moçambicano branco que sou, sempre senti uma ligação muito grande à África do Sul, que era o país que, durante a minha vida em Moçambique, admirávamos e gostávamos de imitar. Eramos colonos, mas compensávamos o embaraço com aquela arrogância dos colonizados: desprezávamos os ‘parolos’ da metrópole portuguesa, reviamo-nos no cosmopolitanismo de toque britânico dos brancos sul-africanos. A África do Sul foi o primeiro país estrangeiro que visitei, duas ou três vezes, na infância, uma delas para ser operado às adenóides e mais duas nos últimos dez anos. Curiosamente, e descontando a transição de pátria de Moçambique para Portugal, o segundo país estrangeiro que conheci foi a Inglaterra, e também por razões de saúde.

Já na idade adulta, habituei-me a olhar a África do Sul com uma mistura de sentimentos muito contraditórios: uma quase intocável admiração, e uma repulsa muito grande pelo apartheid, que foi o mais absurdo, por extemporâneo, dos regimes totalitários. Ao longo dos anos oitenta, sentia um grande e crescente desalento por aquilo que me parecia ser uma situação de huis-clos, sangrento e violento: a situação do regime sul-africano era intolerável, mas qualquer desfecho me parecia ser potencialmente destruidor para o próprio país.

Durante esses derradeiros anos do apartheid, Nelson Mandela tornou-se o epicentro da luta contra o regime: a sua prisão (na ilha de Robben, à vista da bela Cidade do Cabo) tornava-se a cada dia mais insuportável, com pressões internas e internacionais, e sanções que isolavam a África do Sul do resto do mundo. A sua libertação significava, naturalmente, o fim do apartheid e a ameaça de uma enxurrada de violência de proporções inimagináveis.

A história sopra os seus inexoráveis ventos, mas é preciso haver sempre um homem que os saiba interpretar e agir de acordo, e, no momento e no tempo certos, esse homem foi Frederik De Klerk, que percebeu que o apartheid tinha chegado ao fim, e que Mandela era o único homem capaz de levar a grande nação sul-africana para o futuro.

O dia da libertação de Mandela foi um desses momentos em que a história parece que se suspende, e o tempo deixa de correr. Mas foi no momento a seguir que Mandela, como antes Churchill ou Gandhi, se soube elevar acima das suas circunstâncias e, nesse gesto, mudar o mundo. Ao perceber que a raiva o impedia de ser verdadeiramente livre, Mandela trocou a vingança pelo perdão, e o ódio pela reconciliação. Em vez de tribunais para condenar os algozes do regime, Mandela criou comissões de reconciliação, onde vítimas e carrascos contavam, cara a cara, as suas histórias.

Depois de um mandato de cinco anos como presidente da república, Mandela não quis continuar no cargo e preferiu viver a vida, aquela que durante toda a vida tinha sido impedido de viver. E aproveitou todo o tempo dos seus últimos quinze ou vinte anos de vida para ensinar a África do Sul e o mundo a olhar para ele da forma como ele aprendeu a olhar a África do Sul e o mundo: com respeito e com ternura.

Obrigado Madiba.