November 29th, 2013

rosas

metáfora

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"- Olha para o quadro - diz ela, suavemente. - Nunca deixes de olhar para o quadro, como eu sempre fiz.
E vai-se embora. Abre a porta e, sem olhar para trás, sai e fecha-a. Fico à janela a vê-la partir. Desaparece por entre a sombra de uma casa. Com as mãos sobre o peitoril da janela, fico uma eternidade a olhar para o sítio onde ela desapareceu. Pode ser que se tenha esquecido de algo que me quisesse dizer e regresse. Mas não volta mais. Tudo o que resta é o espaço vazio que simboliza a sua ausência.
A abelha acorda e por um momento fica a revolutear à minha volta. Depois, parecendo lembrar-se do que devia estar a fazer, voa pela janela. O Sol já vai alto. Volto para a mesa e sento-me. A chávena dela ainda lá está, com um bocadinho de chá no fundo. Deixo-o lá ficar, sem lhe tocar. É como se a chávena fosse uma metáfora. Uma metáfora de todas as recordações dela, que não tardarão a desaparecer."


- Haruki Murakami, KAFKA À BEIRA-MAR (Casa das Letras)