November 26th, 2013

rosas

venus a la fourrure

Apesar dos seus oitenta anos (feitos este ano) Roman Polanski continua a fazer filmes inquietantes e através dos quais se coloca a si próprio no centro do furacão. Este Venus à la Fourrure (em pt, Vénus de Vison) é, pela segunda vez seguida, uma adaptação de uma peça teatral, e que mantém quase intacto o dispositivo da peça que lhe dá origem: todo passado no interior de um teatro (com excepção de dois travellings exteriores, um que abre e outro que fecha), entre um encenador e uma actriz, durante uma audição para o papel de protagonista da adpatação teatral do livro A Vánus das Peles, de Leopold von Sacher-Masoch (esse mesmo, cujo nome deu origem à expressão ‘masoquismo’).

Tal como já tinha acontecido em Carnage, a fidelização à origem teatral do argumento está longe de confinar o filme aos limites do teatro filmado, mas neste caso o jogo é levado um pouco mais longe: Polanski é um verdadeiro metteur-en-scène, e a expressão é feliz porque tanto serve a função do realizador cinematográfico como a do encenador teatral.

De resto todo o filme é um jogo de espelhos em que Polanski nos envolve até perdermos verdadeiramente a capacidade de distinguir o que é a realidade do filme (um encenador e uma actriz em plena audição) da realidade da peça, a adaptação teatral do romance, ou o próprio romance de Sacher-Masoch. Além disso é irresistível colocar o próprio realizador no centro do jogo, vê-lo como objecto do seu próprio filme, acrescentando mais uma camada, mais um espelho que reflete, ao mesmo tempo que deforma a realidade. Mind fucking? Sim, do melhor e do mais poderoso e do mais adulto que se consegue ver no cinema actual.

Emmanuelle Seigner (que é mulher de Polanski, mais um espelho) e Mathieu Amalric trabalham as suas personagens quase ao ponto da exaustão, e Amalric tem momentos de verdadeira assombração (e com o seu tipico físico, novo espelho). A música de Alexandre Desplat e a fotografia de Pawel Edelman (colaboradores fieis do realizador) são peças determinantes do filme. Mas é sempre o olhar da câmara de Polanski, o domínio do plano americano, que fazem deste filme uma obra imperdível.