November 21st, 2013

rosas

the two hotel francforts

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O David Leavitt e o Edmund White são as minhas duas maiores referências no que toca a literatura gay (dou de barato a discussão acerca do conceito; para este efeito, ‘gay lit’ é a que interessa particularmente aos gays, por contar histórias que os ajudem a reflectir sobre a sua própria condição de homossexuais). Mas se o White tem estado sempre (enfim, quase sempre) na linha da frente do que se possa chamar uma literatura assumidamente gay, o David Leavitt parece estar a escrever cada vez mais fora da caixa. Isto não obstante a presença de homossexuais nos seus livros.

De resto, é um affair entre dois homens que está no centro de The Two Hotel Francorts, o mais recente romance de Leavitt, e de quem eu já tinha saudades, sendo o anterior, The Indian Clerk, já de 2007. E Portugal, ou melhor Lisboa, está no seu epicentro: em 1940, milhares de refugiados chegam a Lisboa fugindo dos horrores da Segunda Grande Guerra, na sua maior parte na esperança de obterem um visto para o novo mundo, especialmente a liberdade dos estados Unidos.

Dois casais ainda jovens encontram-se fortuitamente na esplanada do Café Suiça, no Rossio, e ambos estão instalados em diferentes hoteís com o mesmo nome, Francfort. Um dos homens é o narrador do romance, que se passa quase exclusivamente nesse espaço fechado entre a Baixa e o Cais do Sodré, e durante as breves semanas da sua estadia em Lisboa.

Trata-se de um romance complexo e intenso, em que as personagens e a situações são escalpelizadas ao detalhe, e com uma precisão cirúrgica, resvalando, em certos momentos, para o domínio do romance psicológico. O facto de os dois homens terem um affair insere-se muito mais na análise da complexidade das relações afectivas e sexuais, do que propriamente num exercício gay. A natureza homossexual da ligação contribui quer para a sensação de que tudo em Lisboa é passageiro e efémero, quer para o adensar de uma opressiva sensação de perigo; é, digamos assim, um grau a mais na situação de indigna precariedade que varre a Europa e ameaça os seus habitantes. ‘What happens in Lisbon, stays in Lisbon’, e essa precaridade desperta desejos adormecidos e leva as personagens a fazer coisas que não fariam normalmente.

Para nós, portugueses, o livro de Leavitt tem a atracção suplementar de a cidade de Lisboa ser praticamente a quinta (ou a sexta, se contarmos com Daisy) personagem do romance. Neste aspecto, pareceu-me que o livro está bem investigado (que me lembre só detectei um erro: a informação de que o vinho verde é feito com ‘unripe grapes’!), em particular no que toca à situação política de Portugal na altura e ao papel que Lisboa teve enquanto refúgio e porta de saída de uma Europa devastada pela guerra.