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conto: as enguias
rosas
innersmile
AS ENGUIAS

Naquela manhã a mulher foi ao hipermercado e comprou três enguias. Pediu que as arranjassem e trouxe-as para casa dentro de um saco de plástico transparente. Queria fazer enguias guisadas. Há muitos anos que não comia enguias, nem nunca as tinha cozinhado. Mas era um dos seus pratos preferidos, dos que a mãe fazia. A mãe tinha falecido há mais de dez anos, e nos últimos doze tinha estado entrevada, na sequência de um acidente vascular cerebral, e por isso a mulher calculava que seria há perto de vinte e cinco anos que não comia enguias guisadas.

Não fazia ideia de como a sua mãe cozinhava as enguias, e preparava-se para fazer um guisado igual a todos os outros. Mas lembrava-se de que as enguias tinham de ser regadas com vinagre e salgadas. Por isso mal chegou a casa, a mulher deitou as enguias numa bacia de plástico e regou-as com vinagre. Quando o vinagre tocou nas enguias, elas começaram a saltar dentro da bacia e acabaram por saltar para fora, para a banca da cozinha e uma delas para o chão, manchando de sangue as superfícies limpas.

A mulher assustou-se, e ficou a espreitar da porta da cozinha as enguias contorcendo-se de dor. Faltava-lhe coragem para segurar as enguias, mas quando finalmente elas deixaram de se mexer, calçou luvas de borracha e tentou apanhá-las. Foi muito difícil. Não só porque eram muito viscosas e escorregadias, mas como ainda porque de vez em quando tornavam-se a contorcer e a saltar. Depois de limpar muito bem a banca da cozinha e o chão, a mulher ficou a olhar para a bacia de plástico com as enguias, sem saber muito bem o que fazer.

Na tarde desse dia, a mulher decidiu ir ao computador espreitar a conta de correio electrónico pessoal do marido. O marido era um quadro médio de uma grande companhia de serviços, e telefonara-lhe a dizer que, ao princípio da tarde, haveria na empresa uma reunião muito importante, e que ele deveria ter de ficar a fazer horas extraordinárias ao fim da tarde, depois de terminar a reunião. Ela tentara ligar para o seu telemóvel, mas estava desligado.

Era a primeira vez que a mulher decidia ir espreitar a conta de correio do marido. Nem sabia trabalhar muito bem com o computador, nunca prestara muita atenção nem tinha sentido necessidade. Preferia passar os serões a ler, enquanto o marido estava no computador. Carregou no ícone do gestor de correio e abriu-se à sua frente a página com as mensagens de correio recebidas. Havia talvez uma dezena e meia de mensagens por ler, e a mulher desprezou aquelas cujo remetente ela conhecia de nome, amigos do casal ou colegas do marido, e concentrou-se em três mensagens cujo remetente era uma mulher cujo nome lhe era completamente desconhecido.

Abriu as mensagens, uma por uma. Eram declarações de amor, mal escritas, desorganizadas, cheias de lugares-comuns. Todas terminavam com a expressão ‘amo-te’ escritas em negrito e num tipo de tamanho muito aumentado. A mulher, completamente descontrolada, com o coração a bater descompassadamente e as lágrimas a escorrerem-lhe do rosto, apagou num gesto irado as mensagens, mas foi à procura de outras anteriores da mesma remetente. Havia mais algumas, e havia também algumas respostas do marido a essa outra mulher, mais bem escritas, e correspondendo às declarações de amor.

Pelo teor das mensagens, a mulher percebeu que a outra mulher deveria ser alguém que estaria profissionalmente muito próxima do marido, talvez uma colega ou uma secretária. A mulher agarrou na chave do carro e percorreu a dezena e meia de quilómetros que separavam o bairro residencial onde morava, do edifício de escritórios onde a companhia tinha a sua sede. Perguntou à recepcionista, que conhecia vagamente de ocasiões anteriores, se o marido estava, e a recepcionista respondeu que no fim da reunião tinham saído todos para jantar, mas que voltariam daí a algum tempo, para terminar os trabalhos que tinham em mãos. Num gesto arriscado, a mulher perguntou então à recepcionista se sabia a morada da mulher que enviara as mensagens de correio electrónico ao marido, com o pretexto de que tinham estado todos juntos no fim de semana e ela tinha aproveitado para lhe trazer de empréstimo uns livros de que tinham conversado.

A recepcionista nem hesitou em dar o endereço da outra mulher, e a mulher entrou novamente no seu automóvel e conduziu até à porta do prédio onde a outra mulher vivia. Parou do lado de fora da porta do apartamento e ouviu vozes no seu interior. Ouviu o que parecia ser uma conversa normal, reconheceu a voz do marido, e tocou à companhia. A outra mulher demorou poucos segundos a abrir a porta e ficou admirada quando viu quem era. Não se conheciam, nunca se tinham visto, mas provavelmente a outra mulher sabia de quem se tratava, ou percebeu de imediato.

Com um tom de voz seguro e aparentemente controlado, a mulher disse: “O meu marido está aqui nesta casa. Por favor chame-o imediatamente.”
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