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tudo isto, e o céu também
rosas
innersmile
TUDO ISTO, E O CÉU TAMBÉM

Por muito que se esforçasse para afastar a imagem do seu espírito, nada ao seu redor conseguia fixar-lhe o olhar, apenas o fumo ténue que exalava da chávena de chá pousada no braço verde e gasto da poltrona conseguia momentaneamente atrair a sua atenção, mas logo o olhar de Henriette de novo se perdia, baço e denso como chumbo, na derradeira visão de Charles, nem a consciência de ser finalmente uma mulher livre, assim declarada pelo tribunal que considerou não haver qualquer ligação entre si e o crime tenebroso, nem a perspectiva de ver as crianças, agora órfãs de pai e mãe, a quem tanto se afeiçoara, nem sequer a recordação do olhar profundo e azul de Charles, ou da primeira vez que reparou que esse olhar a fixava de maneira diferente, agora frágil e envolvente onde antes fora frio e distante, nem o tormento sedutor e apavorante que ainda sentia devorar-lhe o peito, uma dor viciante que a tinha trazido viva nos últimos meses, o único sopro de vida que a fizera sobreviver à secura áspera e vazia da cela, à humilhação do julgamento, à notícia de que a sua salvação seria trocada pela vida de Charles, o peso da culpa a oprimir-lhe o peito, a latejar nas têmporas, a bater-lhe na veia grossa do pescoço.

Henriette tentava mais uma vez concentrar o olhar no fumo que exalava da chávena de chá, mas tudo o que via era o corpo de Charles balançando já inerte na ponta da corda.


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Tal como já fez o ano passado, a Margarida, no seu blog 'mas tu és tudo e tivesse eu casa tu passarias à minha porta' (neste endereço: umbloguesemnome.blogspot.pt) decidiu pedir ao seus amigos e leitores títulos para contos que ela se propõe escrever. Tal como fiz o ano passado, decidi acrescentar ao desafio da Margarida o de eu próprio escrever um conto com o mesmo título.
Mas fiz batota, e fui procurar o título de um filme, e escrever uma história baseada na própria sinopse do filme. Um filme com a Bette Davis, claro. Mas há uma regra moral na vida que diz que sempre que fazemos batota, saímos a perder. E assim aconteceu, também desta vez. A Margarida escreveu um conto lindíssimo, que me deixou 'comovido e mudo'. Porque toca numa das cordas mais pungentes da minha vida, aliás, em várias delas.
O conto que a Margarida escreveu está neste endereço: umbloguesemnome.blogspot.pt/2013/11/o-conto-do-miguel.html. Só não o ponho já aqui, porque vale a pena seguir o link e ir ao blog da Margarida ler os contos todos. Mas em breve vou pô-lo aqui, onde guardo todas as coisas que são minhas.