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a young man's heart
rosas
innersmile
No número 2 da Granta, que acabei de ler, o texto da escritora Ana Teresa Pereira, com o título Have a Heart, é sobre velhos filmes a preto e branco que passam à noite na TV, e mais propriamente sobre os filmes baseados em livros e histórias da autoria de Cornell Woolrich, que é considerado um dos maiores escritores policiais norte-americanos (de quem nunca li nenhuma obra). Leio na Wikipedia que Woolrich, que também utilizava o pseudónimo William Irish, era homossexual. Uma consulta à sua página dá uma ideia do impressionante número de romances e colecções de contos do autor; a lista de filmes baseados nas suas histórias é ainda mais impressionante, tendo os argumentos de muitos deles sido adaptados pelo próprio escritor. Entre esses filmes, contam-se um de Hitchcock (Rear Window) e dois de François Truffaut.

Entretanto comecei a ler um livro do escritor brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza, mais um policial protagonizado pelo Delegado Espinosa, e logo numa das primeiras páginas leio o seguinte trecho, a propósito de Phantom Lady, um livro que o protagonista passa a narrativa a tentar ler: ”Não conhecia o autor, William Irish, até saber, pela orelha de outro livro, que William Irish era pseudônimo de Cornell Woolrich."

Adoro estas coincidências, sobretudo quando acontecem em livros, na literatura, porque parecem dar consistência a uma certa ideia de que o mundo dos livros, das histórias que os livros encerram, formam uma espécie de universo paralelo, uma realidade alternativa onde as histórias e as personagens se cruzam como se fossem pessoas reais.

Mas assim que reparei na coincidência, lembrei-me de que se fizesse um texto aqui no innersmile sobre o assunto, o Saint-Clair havia de comentar sobre as coincidências a que ele sempre chamava ‘junguianas’, e que o fascinavam. E então, mais uma vez tomo consciência de como o Saint me faz falta, de como a sua morte prematura foi tão absurda (são todas, eu sei), e de como há na minha mente duas emoções tão intensas, quase dolorosas, e aparentemente contraditórias: por um lado, a de que o Saint nunca existiu, que foi uma fabricação minha, a personagem de um sonho que só eu sonhei; e por outro lado, a de que parece impossível que ele tenha morrido, que o mundo continue a fazer sentido perante o inacreditável facto da sua ausência. Tenho tantas saudades dele...