October 27th, 2013

rosas

hannah arendt, as orações de mansata

Foi um belo sábado. Acordei cedo, mas passei a manhã na sorna, entre a cama, as torradas e o chá, e o sofá, a terminei a leitura de um livro. Sempre com as janelas abertas, para entrar a luz e o sol da manhã que esteve espectacular. À hora do almoço fui nadar, durante uma hora.

A seguir fui ao cinema, ver Hannah Arendt, da realizadora alemã Margarethe Von Trotta, centrado na cobertura que a filósofa judia fez para a revista New Yorker do julgamento do criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann, e que esteve na origem de um uma das suas obras mais conhecidas e controversas, A Banalidade do Mal. Gostei muito do filme, não apenas porque a personalidade de Arendt e o tema do filme me interessam, mas também porque é muito raro vermos filmes assim hoje em dia, com um fundo político, que não se esgotam nos modelos mais típicos da narrativa, sejam eles o melodrama ou o filme de acção. Para o gozo do filme contribui também muito o desempenho de Barbara Sokowa.

Finalmente, à noite fui ao Teatro da Cerca de São Bernardo assistir à peça As Orações de Mansata, uma co-produção da Escola da Noite e de outras companhias portuguesas e brasileiras, feitas no âmbito de um estágio internacional de actores que reúne um grupo de artistas de vários países lusófonos. A peça é de autoria do guineense Abdulai Sila, e é uma adaptação de MacBeth, de WS, à realidade africana, focando-se de modo particular nas práticas de corrupção e violência que caracterizam muitos regimes políticos africanos. Gostei muito da encenação de António Augusto Barros, que tem soluções muito interessantes e eficazes (como as espécies de bastidor/coro que funcionam nas laterais do palco), e que explora com eficácia e sentido de humor o tom de sátira do texto. Mas o grande trunfo do espectáculo reside, sem dúvida, no conjunto de 13 actores e actrizes que dão vida à peça, e que vida!
rosas

lou reed

Há uma velha anedota da história do rock’n’roll que conta que o Brian Eno terá dito uma vez que o primeiro disco dos Velvet Underground, intitulado oficialmente The Velvet Underground and Nico, vendeu muito poucos exemplares quando foi editado em 1967, mas que todas as pessoas que compraram esse disco formaram uma banda logo a seguir a tê-lo ouvido.

Quando eu cheguei a Londres pela primeira vez, em 1984, com 22 anos, para fazer tratamento contra o cancro, sei que tratei logo de comprar o meu primeiro disco dos VU, que foi o White Light/White Heat, de 1968, a que juntei, poucos meses depois, o disco com a célebre capa da banana, desenhada por Andy Warhol, que também produziu.

Se eu tivesse de escrever um obituário muito pessoal sobre o Lou Reed, por exemplo para um dos jornais mais importantes do mundo, acho que punha apenas cinco discos de Reed a tocar uns a seguir aos outros, em loop, durante os nunca menos de 5 dias de luto oficial internacional: os dois dos Velvet Underground que referi; e ainda Transformer, que é um meus discos preferidos, gosto dele todinho, da primeira à última faixa, e é ainda hoje um disco que me dá uma energia intensa; o New York, que foi um disco que ouvi muito e que marcou uma nova maneira de eu ouvir música, é de certa maneira o disco com o qual eu comecei a despedir-me do rock’n’roll; e Songs For Drella, o disco que Reed fez com John Cale de homenagem a Warhol, por ocasião da sua morte, e que foi um disco que marcou o início da minha maturidade cultural e intelectual.

A estes discos, juntaria a noite de 5 de julho de 2003, quando Lou Reed tocou no Jardim da Sereia, em Coimbra, num concerto absolutamente inesquecível. Fui à procura do texto aqui do innersmile em que escrevo sobre esse concerto. É do dia 6 de julho, provavelmente foi escrito ainda num estado de euforia, e diz assim:

Foi mágico (há ocasiões em que só o lugar comum tem sentido). Sem dúvida, um dos melhores concertos a que eu assisti. Uma energia pura, crua, eléctrica, a alternar com um fio de silêncio, com o sortilégio de uma palavra gritada ou sussurrada. Nunca me passou pela cabeça que ver o Lou Reed fosse assim, um exercício de subtileza e distorção. O homem é um deus, que não precisa de artifícios ou poses ou parafernália para se impôr: chega ali, e simplesmente começa a tocar a guitarra eléctrica e a cantar.
Os restantes músicos: Fernando Sauders, baixo e uns drums electrónicos, Mike Rathke, guitarra e caixinhas mágicas (wow, aqueles sininhos do Sunday Morning ao vivo!), Jane Scarpantoni, violoncelo e responsável por alguns dos momentos mais desvairados da noite, e Antony, que cantou um Candy Says arrepiante, daqueles que nos faz lembrar que não há ninguém que alguma vez não tenha sentido que a vida arde, dói, maltrata, magoa, que por vezes o ar que respiramos é ácido e queima-nos por dentro da pele, foram três ou quatro minutos de lágrimas. E ainda o Mestre Guang Yi Ren, que fez uns movimentos à 'O Tigre e o Dragão'. Para aí duas horas e meia de sonho. Muitas canções dos VU, a Sunday Morning, All Tomorrow Parties e Heroin, do disco da banana, a Different Colors Made of Tears, que eu acho que é do White Light White Heat, mas não tenho aqui o vinilo para conferir, o Dirty Boulevard, que eu acho que é do New York, mas também não tenho aqui o vinilo, o Ecstasy, e até o Smalltown do Songs For Drella, o Men of Good Fortune, do Berlin, e, claro, o Perfect Day do Transformer (ok, eu já não pedia o Wild Side, mas ele podia ter tocado o Satellite of Love, ou Vicious ou a I'm So Free, ou, pronto!, o Transformer todo) para além de canções do Raven, que eu não tenho, mas tenho de ir a correr comprar.
Comprei a t-shirt. Não é todos os dias que arranjamos uma t-shirt que à frente diz Lou Reed e atrás, entre outras cidades do Mundo, diz 'Coimbra-Portugal'. E vai ser daquelas coisas, como eu disse ao Pedro, que daqui a muitos anos, havemos de estar velhinhos, o Lou Reed já há-de ter morrido (quer dizer, se ele chegar a morrer, o que, francamente, não parece muito provável), e nós vamos dizer: "Ah, daquela vez que o Lou Reed tocou no Jardim da Sereia... Eu estive lá!


Pois é, Pedro, concerteza já não lês isto, mas parece que chegou esse dia em que o improvável aconteceu, e o Lou Reed morreu mesmo. E como eu já estou bem a caminho de ser velhinho, posso dizer, cofiando a melancólica barba: Eu estive lá!

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