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Decidi reler o Memorial do Convento depois da minha visita ao Palácio Nacional de Mafra, em agosto, com a Sónia e o Bruno. Lembrava-me vagamente do livro, que já tinha lido há muitos anos, e a visita a Mafra, mais do que um pretexto, despertou-me a curiosidade e o interesse pela sua redescoberta.

E pronto, foi um coup de foudre! Não estava à espera que o livro me agarrasse tanto, que fosse tão sublime, que me envolvesse ao ponto de durante os 4 ou 5 dias que demorei a lê-lo, não me apetecer fazer outra coisa (e mais uma vez confirmei que o kindle facilita e estimula a leitura).

Se a componente histórica do romance de Saramago é irresistível, fui particularmente tocado, e isto foi o que mais me surpreendeu, pelas personagens de Blimunda e Baltasar, e também, apesar do seu protagonismo ser secundário, pela personagem histórica do padre Bartolomeu de Gusmão. O primeiro encontro entre Blimunda e Baltasar é uma coisa empolgante, daquelas que parecem ser da ordem dos milagres, um tipo está a ler aquilo e não consegue deixar de se transportar para um plano, sei lá como definir, em que de repente a ficção parece mais real e verdadeira do que a realidade. Há outras passagens, que envolvem os três ou ainda Domenico Scarlatti, que são muito poderosas e comoventes, como se encontrássemos ali, naquelas linhas, coisas essenciais da vida, de nós próprios.

A escrita de Saramago é, como sempre, fulgurante. O melhor de Saramago, para além da riqueza quase barroca da escrita, é, na minha opinião, a voz do seu narrador, e que, ainda que com naturais variantes, se mantém muito distinta e identificável ao longo dos seus romances. Mas aqui, talvez por causa do tema, é particularmente brilhante, riquíssima, irónica e terna quase na mesma passada; até o sarcasmo com que trata o rei e a corte não deixa de ser tocada por essa imensa ternura que Saramago sente sempre em relação aos seus personagens.

Eu sei que estas coisas valem o que valem e só valem enquanto valem, mas, por hoje, acho que o Memorial do Convento é o meu livro preferido de sempre!