September 23rd, 2013

rosas

já não gosto de chocolates

Já Não Gosto de Chocolates

Habitualmente, quando me aproximo do final de um livro que estou a ler, começo a sentir uma certa impaciência para o terminar e passar ao livro seguinte. De vez em quando leio um livro de que não me apetece despedir, e aí vou retardando a sua leitura. Mas é raro terminar a leitura de um livro e apetecer-me de imediato regressar à primeira página e lê-lo de novo.

E foi isso que me aconteceu em relação ao livro de Álamo Oliveira, Já Não Gosto de Chocolates: voltei a última página, e voltei ao princípio, já não para o ler de cabo a rabo, mas avançando pelos capítulos à procura de bocados de prosa impressivos, que os há muitos nesta história de uma família de açorianos emigrantes na Califórnia. Ainda por cima o livro é breve e a leitura rápida e fácil.

Prenderam-me ao livro dois aspectos principais. Em primeiro lugar, o desenho dos personagens. Álamo consegue criar uma galeria de personagens muito verosímeis, ou melhor: muito verdadeiras em relação a elas próprias, personagens em que acreditamos por elas se acreditarem a si próprias. Personagens com as suas forças e fraquezas, com os seus lados solar e lunar, sempre capazes do pior e do melhor. Como todos nós, não é?

Por outro lado surpreendeu-me a capacidade do autor em falar de uma série de sentimentos e emoções com a precisão fria da faca do cirurgião, mas com a ternura de saber que os homens e as mulheres são sempre vítimas de si próprios tanto quanto da vida. Tocou-me o relato que Álamo traça da velhice, talvez por ser matéria em que sou muito sensível, e reconheci no livro muitos dos dramas, das angústias, das desistências, mas também das forças e dos alentos dos “meus” velhos.

Trata-se apenas do segundo livro que leio deste autor açoriano, depois de um quase mítico Até Hoje (Memórias de Cão), um livro desassombrado quer em relação à guerra colonial quer em relação às relações homossexuais que se estabeleciam no meio militar, e que li há mais de trinta anos. Tendo obra considerável, é uma pena que os livros de Álamo Oliveira não se encontrem disponíveis nesta parte continental de um país que, ainda que por vezes pareçam esquecidos, os Açores também fazem parte.