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Quando escrevi aqui, há algum tempo, sobre um livro do Paul Bowles, mencionei o facto de nunca ter lido o livro On The Road, do Jack Kerouac. O Bruno Linhares quis ressalvar essa lacuna, tratando-se para mais, de um livro essencial na sua formação. E então decidiu trazer-me como oferta, o seu próprio exemplar do livro de Kerouac, uma 6ª edição da 1ª tradução e publicação que a obra teve no Brasil, em 1984. O Bruno leu-a em abril de 1985, como se pode ler no seu autógrafo, numa das páginas iniciais do livro. É um acrescento de emoção, ler um livro com história pessoal, que um querido amigo decide assim partilhar connosco.

fotografia

Gostei muito do livro, mas é mais do que isso: sinto como se tivesse cumprido uma missão, como se com a leitura do livro de Kerouac tivesse cumprido uma etapa essencial da minha relação não só com os livros, mas com a minha própria história pessoal; há muitos anos, desde a adolescência, que eu sentia que devia ler este livro, e de certo modo sempre me acobardei, por um lado porque achei que a sua leitura seria difícil, e por outro porque temia que essa dificuldade de leitura maculasse a relação um pouco mítica que eu tenho com a beat generation.

O livro é tudo o que esperaria e ainda mais. Trata-se de uma obra absolutamente seminal no panorama da literatura norte-americana do século XX, quer enquanto obra literária, quer enquanto romance enformador de uma maneira de estar no mundo que marcou todas as gerações seguintes, sendo a minha uma das primeiras da fila.

Apesar de eu ser um pouco um adolescente retardado, não me tocou, no livro de Kerouac, o apelo da estrada, da liberdade irresponsável; retardado, mas não tanto! E creio que se me tivesse deixado tocar por isso, a melancolia seria absolutamente insuportável. Então o livro tocou-me principalmente por dois aspectos. Um primeiro que tem a ver com a própria experiência literária. Ainda hoje, On The Road é um livro libertador, matriz de um género de literatura em que a linguagem e a escrita, a narrativa e a mediação literária, são sempre um exercício que se alicerça directamente sobre a experiência e o real, a memória e a vida.

O outro aspecto que me marcou, e digo isto sem ponta de presunção, é que me assumo, não tanto por uma questão pessoal, mas sobretudo geracional, como um filho de Kerouac, um filho de On The Road. O mundo que herdei era este, feito de aspiração e fôlego, ideal e utópico, a libertar-se do conformismo e ainda intocado pelo consumismo desenfreado e pela idiotização televisiva. Admito que todas as gerações, que todos os jovens se sintam assim, asfixiados pela norma do mundo a que chegaram; mas revi-me muito não propriamente no apelo da liberdade da estrada, mas de que o mundo, o seu precário e frágil equilíbrio, pode estar dependente da indómita vontade de escrever um livro que me liberte.