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sagração da primavera - solo
rosas
innersmile
Fui ontem ao Teatro Aveirense para assistir ao solo que Olga Roriz criou para a Sagração da Primavera, de Igor Stravinski. Adorei! Já tinha saudades destas criações muito plásticas da Olga Roriz, com um sentido da encenação tão apurado quanto o da coreografia, com um espaço cénico tão denso que parece que podemos tocar a sua organização, como se a encenação fosse uma coisa tangível.

Como acontece muitas vezes, Roriz consegue, através da utilização de recursos escassos, criar uma sensação de drama, que só por si eleva a coreografia para outro patamar. Neste solo, depois de uma apresentação inicial, Roriz como que troca de personagem e apresenta ao público uma espécie de dupla de si própria, uma personagem de si própria, e que daí até ao final, nunca mais conseguimos largar: é sempre essa mulher madura, grave, que se senta à mesa a fumar e a escrever, a oferecer à primavera o ritual do seu sacrifício.

A encenação é poderosa, no rigor espartano dos seus elementos. Uma raíz de árvore imensa, um conjunto de mesa e cadeira que constitui uma ligação ao real, e a poeira, vermelha de barro, que cobre o palco e que a coreógrafia elege como contraponto da bailarina.

Não sei se será exatamente motivo de espanto, mas não deixa de ser impressionante a energia e a entrega de Roriz neste solo, tendo em conta que, tentemos ser elegantes, já passou a idade em que o corpo consegue responder ao tremendo esforço que a dança exige. É quase da ordem dos milagres que uma energia assim se ligue a um sentido apurado do pathos, e a um domínio da linguagem coreográfica.

Confesso que não sou muito apaixonado pela peça de Stravinski, que me põe normalmente num estado de stress irritativo. Mas ontem, por mais de uma vez me apeteceu levantar-me e abraçar esta tremenda Sagração da Primavera.
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