September 12th, 2013

rosas

lucília

Já aqui tinha escrito que a minha tia mais velha estava bastante doente. No sábado passado levei a minha mãe e a minha tia mais nova (que tem 80 anos, a minha mãe tem 82!) até ao norte, a uma pequena aldeia no Minho, a visitar a minha tia mais velha, que foi transferida para um lar. Foi uma visita muito perturbadora e angustiante. Primeiro porque estava à espera que a minha tia estivesse num estado de falta de consciência mais profundo; mas estava reactiva, respondia a estímulos e a perguntas, abria os olhos e até dizia algumas palavras em resposta a perguntas nossas. Fiquei muito angustiado a pensar até que ponto a minha tia tinha consciência da sua situação. Depois porque foi muito emotivo mas também doloroso ver as três irmãs juntas; já sem histórias e gargalhadas, sem canções e anedotas, mas sempre com a mesma cumplicidade e o mesmo carinho.

Na segunda-feira de manhã recebemos a noticia de que a minha tia acabara de falecer. Um dia depois da visita das irmãs. É impossível não pensar que ela esteve à espera dessa visita para se poder despedir. Estou naturalmente triste. Por mim, porque a minha mãe e as minhas tias sempre foram uma referência familiar e pessoal. Mas também pela minha mãe, que, para além da saudade, sente com uma agudeza impressionante, que a morte da sua irmã é de facto o fim de um tempo. A velhice pode ter-lhe roubado muitas coisas, mas enquanto tinha ambas as irmãs permanecia-lhe intacta uma certa alegria maravilhada que trazia da infância.

Sempre tive com a minha tia uma relação muito próxima e informal (sempre tratei as minhas tias por tu); passei muitas semanas de férias na sua casa, quer em Moçambique quer já cá em Portugal. Até há muito poucos anos fazia sempre uma semana de férias de agosto na praia, com os meus primos, e ficava sempre com ela. A minha tia era uma mulher muito autónoma e inteligente. Escrevia muito bem, e, das três irmãs, era a que tinha herdado do pai, em maior dose, um sentido de humor malandro, pícaro, com muitos trocadilhos. Lembro-me de passarmos uma noite de Santo António a trocar, por telemóvel, quadras humorísticas sobre o tema, que a minha mãe ainda guarda.

Era da minha tia, que tinha sempre a resposta espontânea e divertida, uma das minhas frases preferidas, que continuo a usar com frequência. Um dia estávamos a conversar sobre alguém, não faço ideia quem, e eu estava a dizer-lhe que essa pessoa era daquelas com quem eu não gostava de falar, e reforcei: “Nem para lhe perguntar as horas”. E responde a minha tia: “É melhor nem lhe perguntares as horas. Ainda acabas a ter de lhe dar corda ao relógio”!