September 11th, 2013

rosas

II.4.18



"George Shearing, o grande pianista de jazz, Dean falou, era justamente como Rollo Greb. Dean e eu fomos assistir Shearing no Birdland no meio deste fim de semana longo e louco. O lugar estava às moscas, éramos os primeiros fregueses, às dez da noite. Shearing apareceu, cego, com alguém conduzindo-o pela mão até o piano. Era um inglês distinto e bem apessoado, com o colarinho branco duro, levemente bofe, loiro, envolto por uma suave brisa noturna de verão inglês que se tornou evidente no primeiro número suave e murmurante, que ele executou enquanto o baixista se curvava reverencialmente para ele enquanto marcava o ritmo. Denzil Best, o baterista, permanecia sentado e imóvel, exceto por seus pulsos estalando as baquetas. E Shearing deu início ao embalo; um sorriso aflorava de seu rosto extasiado; ele começou a suingar no banquinho do piano, para a frente e para trás, a princípio lentamente até que o ritmo esquentou e ele começou a balançar mais rápido, seu pé esquerdo marcando o ritmo de cada batida, se pescoço acompanhando tortuosamente em loucos meandros, ele baixando a cara até os teclados, levando o cabelo para trás, seu penteado se desmanchando, e ele começando a suar. A música esquentou. O baixista arqueava surrando as cordas, mais e mais rápido, quer dizer, parecia ir cada vez mais rápido, apenas isso. Shearing começou a tocar seus acordes; eles ressoavam a cântaros para fora de seu piano em incríveis sons suntuosos. Chegava-se a pensar que o homem não conseguiria alinhá-los. Eles deixavam o som rolar e rolar, como ondas do mar. A rapaziada gritava “Vai” para ele. Dean estava todo suado, o suor escorria pela sua gola. “Aí está ele! Ele é esse aí! O Pai de Todos! Shearing é o Pai de Todos! Só é! Sim, é ele!” E Shearin já se apercebera do louco às suas costas, ele podia ouvir cada uma das exclamações e sussurros de Dean, não podia vê-lo mas podia senti-las. “É isso aí!”, disse Dean. “Legal!” Shearing sorriu; ele balançava. Shearing levantou-se do piano, suando em bicas; esses eram seus grandes dias de 1949, antes de ele ficar frio e comercial. Quando ele se foi, Dean apontou para o banco desocupado do piano. “O trono vazio de Deus”, disse. Sobre o piano repousava um trompete; sua sombra dourada provocava um estranho reflexo na direção da caravana do deserto pintada na parede, atrás da bateria. Deus se fora, restava o silêncio da sua retirada.”

- Jack Kerouac ON THE ROAD - PÉ NA ESTRADA (Editora Brasiliense, Tradução de Eduardo Bueno e Antonio Bivar)


Não podia, no dia de hoje, deixar de pôr aqui um texto que de alguma forma comemorasse a América, naquilo que ela tem de mais essencial e esplendoroso. E apesar de George Shearing ser inglês, não há nada de mais radicalmente americano do que o jazz, sobretudo este que se ouve nesta gravação.

Como estou a ler o On The Road numa tradução brasileira, achei que só fazia sentido transcrever para aqui este trecho admirável no português do Brasil em que o li. Mas encontrei na net o original de Kerouac, e até como exercício comparativo, aqui fica.

"George Shearing, the great jazz pianist, Dean said, was exactly like Roll Greb. Dean and I went to see Shearing at Birdland in the midst of the long, mad weekend. The place was deserted, we were the first customers, ten o’clock. Shearing came out, blind, led by the hand to his keyboard. He was distinguished-looking Englishman with a stiff white collar, slightly beefy, blond, with a delicate English-summer’s-night air about him that came out in the first rippling sweet number he played as the bass-player leaned to him reverently and thrummed the beat. The drummer, Denzil Best, sat motionless except for his wrists snapping the brushes. And Shearing began to rock; a smile broke over his ecstatic face; he began to rock in the piano seat, back and forth, slowly at first, then the beat went up, and he began rocking fast, his left foot jumped up with every beat, his neck began to rock crookedly, he brought his face down to the keys, he pushed his hair back, his combed hair dissolved, he began to sweat. The music I picked up. The bass-player hunched over and socked it in, faster and faster, it seemed faster and faster, that’s all. Shearing began to play his chords; they rolled out of the piano in great rich showers, you’d think the man wouldn’t have time to line them up. They rolled and rolled like the sea. Folks yelled for him to "Go!" Dean was sweating; the swear poured down his collar. "There he is! That’s him! Old God! Old God Shearing! Yes! Yes! Yes!" And Shearing was conscious of the madman behind him, he could hear every one of Dean’s gasps and imprecations, he could sense it though he couldn’t see. "That’s right!" Dean said. "Yes!" Shearing smiled; he rocked. Shearing rose from the piano, dripping with sweat; these were his great 1949 days before he became cool and commercial. When he was gone Dean pointed to the empty piano seat. "God’s empty chair," he said. On the piano a horn sat; its golden shadow made a strange reflection along the desert caravan painted on the wall behind the drums. God was gone; it was the silence of his departure."