September 3rd, 2013

rosas

dois mundos

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O Pedro Xavier é um jovem autor, que eu tive o gosto de conhecer pessoalmente no último jantar de blogs, organizado pelo João e pela Margarida. Além disso, os seus livros foram publicados pela Index Ebooks, a editora que também publicou o meu livro de contos. Razões suficientes para eu ter muita curiosidade em ler os livros do Pedro, para mais tratando-se de um género literário de que não sou grande frequentador.

O que mais me espanta neste tipo de literatura (de que conheço praticamente nada, note-se), e nesta saga Dois Mundos em particular, é, por um lado, a imaginação imensa e o poder de criatividade dos seus autores, que inventam universos fantásticos e delirantes; e por outro a sua capacidade de organização e síntese, que lhes permite “segurar” esses universos, estruturá-los de maneira lógica, de modo a que eles não só resistam à narrativa, como a ajudem e a fixem.

Esta espécie de vocação enciclopédica dos livros de fantasia é apaixonante, mas é ao mesmo tempo um pouco perigosa, pois podem prender demasiado o autor, roubando-lhe tempo e espaço para a própria narrativa, para o enredo. E o Pedro Xavier consegue evitar esses perigos de maneira muito eficaz, não perdendo com o “cenário” mais do que o tempo necessário para contextualizar a acção.

Não sendo eu grande admirador do género, não me deixo muito seduzir pelas peripécias da história e pelos seus desenvolvimentos mais psicadélicos, digamos assim. Mas as histórias do Pedro Xavier são mais do que livros de aventuras em sentido estrito. São igualmente sagas que desenvolvem uma certa maneira de olhar o mundo, pacífica e harmoniosa, e com a qual estamos, os personagens mas também nós, os leitores, dispostos a correr o risco de nos confrontarmos e medirmos, nas nossas opções culturais e até civilizacionais. É, neste sentido, um livro que ensaia uma visão naturalistica e ecológica do universo da fantasia.

Além disso, a saga Dois Mundos comete ainda a proeza de, assumindo uma dimensão de narrativa romântica, colocar no seio do enredo uma relação afectiva entre dois protagonistas do mesmo sexo. E consegue fazê-lo de forma nada panfletária ou militante, inserindo a ‘normalidade’ dessa relação homossexual no contexto da sua filosofia de harmonia natural.

Estou convencido de que muitas das qualidades destes livros estão ligadas à juventude do seu autor. Sem candura ou ingenuidade, há nestas narrativas uma pureza, ou melhor: uma limpidez de olhar, que nos seduz e nos conduz pela mão. Suponho que faria todo o sentido que Dois Mundos fosse lido por aqueles que nas literaturas anglo-saxónicas se denominam por young adults. Não estamos claramente no domínio da literatura infantil, e literatura juvenil parece ser uma denominação um pouco naive, uma vez que Dois Mundos exige do leitor algum apetrechamento. Mas há nestes livros uma certa vocação formativa que parece ser indicada para quem tem com o mundo uma relação crítica mas construtiva e muito positiva.