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despudorados e desinibidos
rosas
innersmile
Com a mesma facilidade e a mesma desinibição com que as pessoas vêm para o facebook lamentar a morte de mais um bombeiro, como se a manifestação pública de uma emoção fosse uma caução de redenção social, leio mensagens na minha timeline de regozijo pela morte de um político liberal que nos anos mais recentes ficou famoso, tristemente famoso, pelas suas afirmações bombásticas e mesmo insensatas ou ofensivas.

Confesso que fiquei chocado ao ler no facebook, a propósito da morte de António Borges, mensagens como ‘já vais tarde’ ou ‘arde no inferno’. Nada me poderia separar mais do homem e do seu ultra-liberalismo trauliteiro e despudorado, que me causa mesmo alguma repugnância. Mas na morte devemos ser compassivos, e o homem que fazia afirmações provocatórias já não existe; em seu lugar ficou a memória, apenas ela, e, como a memória de todos os homens, merece ser respeitada. Todos morremos sozinhos, e a imensa fragilidade dessa hora iguala-nos e lembra-nos, a todos, de como somos pequenos e precários.

Para mais, António Borges morreu muito novo, e foi vítima de um cancro terrível que, tivémos a possibilidade de ver na televisão, o consumiu de maneira devastadora. Mais uma razão para a nossa compaixão, e para nos solidarizarmos com aqueles que sofrem a dor da sua morte, como nós sofremos pela dos que nos são queridos, e, esperemos, como alguém um dia há-de sofrer com a nossa.

Curiosamente, e por coincidência, a edição do Público de hoje traz um artigo muito interessante sobre o trolling e aquilo que, nos meios académicos, se denomina por ‘desinibição tóxica’, e que é precisamente essa falta de vergonha que a distância e a sensação de anonimato da internet permitem, e que leva as pessoas, todos nós, a dizer e a escrever os maiores disparates e as maiores barbaridades. E que é o contrário da chamada desinibição benigna, ou seja, a possibilidade de, com a mesma souplesse e ligeireza, virmos para o facebook chorar a morte do último bombeiro caído no combate às chamas.
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