August 21st, 2013

rosas

the night of the hunter

O Cineclube Fila K organiza sessões de cinema semanais no Museu do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, a um preço mais que simbólico. Neste mês de Agosto as sessões têm sido ao ar livre, aproveitando as paredes dos cubos de betão do edifício do museu para ecrã de projecção. Fui ontem pela primeira vez assistir a uma destas sessões, e é muito agradável: está fresquinho, a paisagem é magnífica, as sombras projectadas nas paredes do museu são entusiasmantes, o céu estava estrelado, com vista privilegiada para a Ursa Menor, a lua estava cheia apesar de estarmos de costas para ela, o ambiente humano é descontraído (não sei se será significativo, mas a maior parte da audiência era composta por pessoas da minha idade ou mesmo mais velhas!)


Enfim, o cenário ideal para tornar ainda mais memorável a circunstância de finalmente ter podido assistir a um filme de culto, que há muito tempo perseguia (e que ontem, naquelas circunstâncias tão especiais, agradeci não ter ainda visto, no ecrã minúsculo do computador ou da televisão): The Night of The Hunter, em português A Sombra do Caçador, um filme de 1955, o único realizado pelo actor inglês Charles Laughton, com interpretações de Robert Mitchum, Shelley Winters, e a mítica Lillian Gish, entre outros.

O filme é absolutamente soberbo, e ainda melhor do que a minha expectativa. Conta a história de um pastor e assassino em série que se aproxima de uma viúva e dos seus dois filhos, ainda crianças, com o intuíto de descobrir onde está escondido o dinheiro roubado pelo marido, e que ele conheceu na prisão enquanto este aguardava a execução da sua sentença de morte.

Tudo neste filme é especial, a começar pela cinematografia que recorre a um tom expressionista para criar um ambiente de conto de fadas fantasmagórico, que seja adequado à narrativa muito marcada simbólicamente, e ao tema, a luta entre as clássicas dicotomias, bem e mal, ou amor e ódio, esta bem expressa nas palavras que o vilão traz tatuadas nos nós dos dedos. Esta caracteristica de conto de fadas (sendo significativo que esta é uma história em que as crianças desempenham um papel chave) é ainda acentuada por uma carga sensual muito forte, constituíndo-se o filme quase como um exercício sobre o puritanismo sexual norte-americano, em que se joga o antagonismo entre o repúdio religioso do sexo e a inexorabilidade do desejo.

Cada plano é um milagre de composição visual, daqueles que apetece fixar a frame e mandar fazer um quadro para por na parede. A mise-en-scéne é quase artesanal, naquele sentido que quase apenas a literatura nos transmite, de percebemos o modo como a frase foi construída enquanto nos deliciamos com o seu resultado final. A utilização do som e da banda sonora, o preto e branco da fotografia, a utilização da luz e da sombra para criar planos sobrepostos de leitura ou de silhuetas recortadas, a utilização de elementos naturalisticos, tudo isso ajuda a criar uma envolvência poética que todavia nunca atrapalha a economia narrativa do thriller.

Ao falar deste filme é obrigatório referir a interpretação do Robert Mitchum. O seu corpo, a sua face, as mãos, o olhar, a voz, os gestos, tudo personifica, ou corporiza, em cada momento todos estes aspectos que tenho estado a referir sobre o filme. Mitchum é tão assustador quanto fascinante, daquela maneira que só os verdadeiramente santos ou os completamente demoníacos conseguem ser.

Mas também é impossível não referir a Lillian Gish, verdadeira lenda do cinema e cujo nome se confunde com ele. Neste filme, Gish teria mais de sessenta anos de idade, e já fazia filmes há mais de quarenta, sendo um dos raríssimos casos em que a transição do mudo para os talkies se fez sem qualquer solução de continuidade. É impressionante, e mesmo comovente, vê-la neste filme a reconhecer e a defender aquilo que de melhor os homens trazem consigo, aquilo que guardam desde a infância; como refere a sua personagem Rachel Cooper, "children are man at his strongest. They abide." E, nas derradeiras palavras do filme, “The wind blows and the rain's a-cold. Yet they abide… They abide and they endure”.


Em tempo: aqui está uma foto do título do filme, tirada da imagem projectada na parede do MMSCAV:

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