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conto: à hora do chá
rosas
innersmile
À HORA DO CHÁ

Suponho que todas as gerações se sentirão uma espécie de intermezzo, de hiato, de interim. A cada um de nós a vida dá a possibilidade de se sentir perdido, ou mesmo esvaziado, entre o mundo que o acolheu, e de que apenas conheceu, na infância nebulosa, o lento e inexorável extertor, e o mundo que vai deixar quando partir, de que apenas conhecerá os indecisos contornos, as promessas de um futuro esse sim admirável, ainda que apenas adivinhado. Foi nisto que pensei enquanto desempacotava de uma caixa de cartão resistente, peça a peça, embrulhadas em papel vegetal e de jornal, o serviço de chá em porcelana inglesa da mãe, que lhe fora oferecido como prenda de casamento, e que, miraculosamente, tinha chegado inteiro às minhas mãos, depois de uma vida inteira a servir ao lanche quase todas as tardes. Ano a ano, estação a estação, as peças que chegavam à mesa iam diminuindo em número, à medida que a família ia desaparecendo e os convivas à mesa do chá iam sendo cada vez menos. Arrumei as peças do serviço, depois de bem lavadas e enxugadas à mão, nas prateleiras do fundo da cristaleira, ela também uma herança da casa dos pais. O chá, hoje em dia, quando é servido, dispensa os requintes da variedade de peças, basta uma caneca, quando muito duas, para onde se atiram, distraidamente, os pacotinhos individuais de chá, comprados, com indiferença, no supermercado do costume. A água é fervida numa chaleira eléctrica, e deitada directamente nas canecas. O leite, quando é usado, verte-se da embalagem herméticamente selada, ainda gelado do frigorífico, e açucar, ainda que raramente seja necessário, é o dos pacotes que se distribuem gratuitamente nos cafés. Não se põe a mesa para o chá. Ele é sorvido, em goles breves, ao fim da tarde, quando, no sofá já deformado da sala, se vai à internet ler as mensagens do correio electrónico.
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