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Comprei dois cd’s para a minha mãe, o Desfado, da Ana Moura, e o da Gisela João. Tinha a certeza de que ela ia gostar de ambos, porque são muito bons. Além disso, queria ouvi-los com ela, que é com quem mais gosto de ouvir fado: porque conhece o fado, porque sabe ouvir, porque está sempre disponível para ouvir coisas novas, e porque as impressões que vamos trocando enriquecem sempre a audição.

Começámos pela Ana Moura, e ela gostou imenso, ouviu com muita atenção, a seguir as letras pelo encarte, a marcar os compassos com a mão no braço do maple, e, no fim das canções, já conseguia acompanhá-las a cantarolar baixinho. Até das canções em inglês ela seguiu com atenção; falei-lhe da Case of You, e ela pediu-me para ouvir a Joni Mitchell, para poder avaliar melhor a versão da Ana Moura. Um dos primeiros comentários que fez foi à utilização do baixo ou do contra-baixo, que ela acha que enche e dá profundidade aos arranjos, não deixando a viola e a guitarra ali pendurados. Como ela diz, estava a gostar tanto que até sentia vontade de chorar (a minha mãe, e eu também sou um pouco assim, comove-se mais com a alegria do que com a tristeza).

Mas depois a Gisela João foi uma experiência fabulosa. Ela começou por gostar muito da voz, e como não, aquilo é um vozeirão impressionante! Depois gostou muito da crueza dos fados, todos muito reduzidos à essência (ela que tinha acabado de elogiar, no disco da Ana Moura, e recurso a arranjos mais enriquecidos com outros instrumentos), na tradição do fado tradicional e do fado castiço. Adorou a escolha dos fados, de todos eles, da versão modernaça que a Capicua fez para a Mariquinhas, ao fado menor e ao fado corrido, dos fados tradicionais que a Gisela foi buscar, como o incontornável Não Venhas Tarde (como eu disse, o único defeito desta versão, é que o Carlos Ramos a cantar era perfeito). Às tantas, comenta que estava a gostar tanto do disco, que até estava ”empolgada”!

Mas o melhor estava guardado para o fado Sou Tua, de Domingos Gonçalves Costa, letra, e música de Casimiro Ramos. A minha mãe, enquanto adolescente, conheceu os dois autores da canção, em Lourenço Marques. Casimiro Ramos foi a Moçambique “fazer um cabaret num casino”, e integrou o meu avô no seu grupo de músicos que acompanhava a fadista. Tornou-se visita de casa do meu avô, e a minha mãe e as minhas tias chamavam-no ‘ti Casemiro’. Quando os meus avós vieram a Portugal (à metrópole, como então se dizia), em finais dos anos 50, foi Casimiro Ramos quem o recebeu e acompanhou na sua introdução à noite fadista de Lisboa. Quanto a Domingos Costa, além de ser homónimo do avô materno da minha mãe, era muito amigo da família e sobretudo do meu avô. E segundo conta a minha mãe, foi o meu avô que lhe comprou a passagem quando decidiu regressar a Lisboa.