August 2nd, 2013

rosas

viagens

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Apesar de ler muito, as minhas leituras são muito erráticas e não obedecem a nenhum cânone. O meu amigo Zé, que é um académico, chama às minhas leituras, com um tom que tem tanto de desprezo como de ternura, os ‘livritos’, tipo “vem ter comigo ao café mas traz um dos teus livritos que eu tenho de trabalhar em coisas científicas importantes”.

Há muitos escritores aos quas cheguei por serem ícones da cultura pop, mas que nunca li. Entre estes, estão quase todos os da chamada beat generation, que sempre conheci e admirei, mas de quem nunca li uma linha. Exceptuando o Allen Ginsberg cujo O Uivo é um livro que trago desde a adolescência, nunca li Jack Kerouak, li, ano passado, um único livro de William S. Burroughs (porque o Zé me emprestou e obrigou a ler). De igual modo nunca tinha lido nada de Paul Bowles, nem sequer o imensamente popular The Sheltering Sky (mas é claro que vi o filme de Bernardo Bertolucci), apesar de ser tu cá tu lá com a sua dimensão de figura de culto da contracultura e da cultura pop.

Finalmente reparei essa falta com a leitura de Viagens, uma coleccção de textos que abarcam um arco temporal de cerca de 60 anos, e que foram sendo publicados em várias revistas ao longo da vida do autor. Como todas estas colectâneas de textos dispersos, o resultado é sempre um pouco desequilibrado, há textos melhores que outros, mais interessantes, mais divertidos ou formativos. Mas mesmo assim fiquei surpreendido, pois apesar das variações de tema e de tom, o resultado é muito homogéneo, a escrita e a sua voz são claramente identificadas, e a coerência entre os textos resulta, mais do que dos temas, do olhar do observador e da sua prosa.

Os meus momentos preferidos da leitura foram sempre aqueles em que o analista e mesmo o contemplativo, deram lugar ao narrador. Em vários textos, ou apenas em trechos de breves linhas, Bowles revela-se um contador de histórias espantoso, em que o humor e um certo tom distante, convivem com uma atenção aos detalhes muito aguda e uma enorme capacidade de envolver o leitor na circunstância e no desenrolar da narrativa.

Claro que o grosso da coluna, em termos de quantidade e até de qualidade dos textos, tem por tema Marrocos, onde Bowles viveu durante a maior parte da sua vida. Mas há textos sobre muitos outros lugares, nomeadamente sobre a Madeira. Gostei particularmente daqueles que têm por tema o Sri Lanka, onde Bowles também viveu e onde, aliás, foi proprietário de uma pequena ilha ao largo da costa sul do país, chamada Trapobana.