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as três irmãs
rosas
innersmile
Na velha cidade de Lourenço Marques havia um modesto funcionário administrativo dos caminhos de ferro, que vivia com a mulher e as filhas numa casa de uma zona pobre que fazia fronteira entre a cidade de cimento dos brancos e a cidade de caniço dos pretos.
O homem, além de funcionário público, era guitarrista, tocava guitarra portuguesa, e todos os dias chegava a casa cedo, lanchava e ia deitar-se. Depois, já de noite, arranjava-se, ceava, e saía para ir tocar nos casinos da baixa da cidade, onde acompanhava as fadistas lisboetas que faziam digressão pela Africa portuguesa. Regressava a casa já de madrugada, a poucas horas de entrar ao serviço da repartição pública.

Como só toca guitarra quem tem unhas, o homem preservava as suas, e era a mulher, uma senhora alta e forte, que fazia as vezes de homem da casa, assegurando sozinha todas as tarefas, as fracas e as fortes, que nas outras casas são distribuídas pelos dois géneros.

As filhas eram três, nascidas com intervalos quase perfeitos de dois anos entre cada uma, e a do meio é minha mãe. Eu, do casal, já só conheci a mulher, que foi minha avó, porque o homem morreu muito cedo, de doença. Um dos privilégios da minha vida foi ter convivido até à idade adulta com essa minha avó, que era uma mulher extraordinária, que fazia trabalhos em crochet com linha branca, sabia cozinhar petiscos de gostos e aromas exóticos, e escrevia sem qualquer erro e com um cursivo certinho e arredondado, as palavras ‘bruce springsteen’.

Devia haver muito amor entre esse homem e essa mulher, porque só assim se compreende que ele tenha transbordado para as gerações seguintes, mantendo as três filhas sempre muito ligadas, mesmo quando as voltas e as dificuldades da vida as mantiveram fisicamente afastadas. E esse amor transbordou ainda à geração seguinte, e os primos direitos, que são seis, mantêm-se também eles muito próximos. E eu sei, que sou padrinho de baptismo de dois dos filhos dos meus primos.

Os meus primos e eu costumamos brincar que não conseguimos guardar segredos entre nós, pois as três irmãs diariamente se falam (a gratuitidade das chamadas da rede fixa foi uma benção) e actualizam as novidades todas. Há muito tempo que não se juntam as três, já todas octogenárias, mas sempre que isso acontece é uma festa: de histórias, de memórias, de canções, de recordações, de anedotas, e até de gossip, quando é caso disso.

A semana passada a minha tia mais velha caíu. Foi um acidente gravíssimo, com consequências que neste momento ainda não conseguimos prever. É difícil consolar a minha mãe, que, além de preocupada, está numa tristeza imensa e profunda. Aliás é difícil consolar a minha própria tristeza. De algum modo, começam a escrever-se as últimas páginas dessa história tão bonita e feliz que começou há mais de um século, na antiga cidade de Lourenço Marques.