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o papa, o gay e a santa
rosas
innersmile
1.
Confesso que não me comovi com as declarações do Papa sobre o lugar que os gays afinal têm no reino dos céus. Mas também não me indignei juntamente com aqueles que acharam que mesmo assim a porta continua a ser estreita.

Pura e simplesmente, aquilo que o Papa, enquanto representante máximo da igreja católica, pensa e diz sobre a homossexualidade não me perturba, não me afecta, nem sequer me diz respeito. É lá com ele e com as suas ovelhas. Preocupam-me, sim, os que sofrem com isso, porque respeito muito a fé dos outros, e tenho profunda admiração pela forma como alguns a vivem.

Mas de todo o modo, o inferno do Papa não me assusta. De facto, só o inferno dos homens é que me assusta de verdade, e incomoda-me que o inferno do Papa possa contribuir, como já o fez no passado, para atiçar as chamas do inferno dos homens.

Ao contrário, o paraíso do Papa é-me indiferente. E não percebo porque é que alguns homossexuais, em particular aqueles que se dizem ateus, se indignam por a porta do paraíso do Papa estar fechada, se não aos gays, pelo menos aos que praticam atos homossexuais.

2.
Se o Papa não me comove, comove-me, e muito, a fé dos outros. O ano passado, quando estive doente, achei que a fé de algumas pessoas na Nossa Senhora da Aparecida tinha tido alguma coisa a ver com a maneira airosa como me safei de um encontro com o cancro. Achei que uma estátuazinha da Nossa Senhora da Aparecida ficaria muito bem ao pé de uma outra que eu tenho do São Miguel, e que me foi oferecida por alguém que acredita muito nos santos (e no Papa), e a quem eu amo muito.

Pedi ao Bruno para me comprar uma estatueta da Santa e que a guardasse, à espera de uma oportunidade que a vida nos havia de dar de fazer a Santa chegar às minhas mãos. O Bruno, que é uma pessoa muito religiosa e é também um grande amigo (daqueles em que Amigo se escreve com A de Amor), fez-me a vontade e pouco tempo depois comprou-me uma Santa talhada à mão, em madeira perfumada, que desde então tem estado em sua casa, no bairro do Jardim Botânico, na cidade do Rio de Janeiro. Já houve muitos planos para portadores mas a vida, que é mestra a misturar coisas boas e coisas más, vai trazer o Bruno à Europa, por razões tristes, mas fá-lo parar, por razões boas, em Portugal durante um fim de semana. Ou seja, por coisas boas, dentro de um mês a Santa estará a chegar a casa, num percurso que começou em Setembro do ano passado, e que a vai fazer voar por meio mundo.

Entretanto a semana passada o Papa foi ao Brasil e o Bruno, que é protestante e por isso não reconhece o Papa como líder espiritual (espero que seja assim e não esteja a dizer nenhuma asneira), foi ouvi-lo rezar o Angelus na varanda do palácio arquiepiscopal e levou a Santa. No momento da benção, o Bruno, de lágrimas nos olhos, encostou a Santa de encontro ao peito e ela foi benzida pelo Papa.

O Papa não sabe, mas já benzeu uma Santa que é filha adoptiva de dois gays que nem sequer são casados um com o outro. E por esse gesto, eu posso nunca chegar a entrar no paraíso do Papa, mas o Papa Francisco já entrou no meu.

3.
Aqui está uma foto da Santa, num dos momentos mais bonitos da sua longa viagem para a casa do papai português, segurada pela mão do papai brasileiro. Ao fundo pode ver-se a varanda de onde o Papa a benzeu.

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