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dans la maison (dentro de casa) (4*)
rosas
innersmile
Finalmente podemos ver nas salas Dans La Maison, o penúltimo filme de François ozon, quando já estreou internacionalmente o seu mais recente, Jeune et Jolie. Gostei imenso de Dans la Maison, um filme divertidíssimo, com o toque de sátira e até uma pontinha de crueldade que é habitual no realizador, e que ainda por cima foca um tema que me agrada particularmente, que tem a ver com o papel (e o poder) da narrativa na percepção que temos do mundo real: quando contamos uma história, em particular uma história verdadeira (baseada em factos reais, como costumam anunciar os cartazes de cinema), a história que contamos é ainda a que se passou na realidade, ou é já a história que o seu narrador criou?

Em breves traços, o filme conta a história da relação entre um professor de francês, enfadado com a falta de capacidades de escrita dos seus alunos, e um aluno em quem ele reconhece potencial narrativo para se tornar um escritor. O problema é que a história que o aluno vai escrevendo e com que vai satisfazendo o apetite do professor (cita-se directamente a Sherazade das Mil e Uma Noites, cuja vida o sultão vai poupando enquanto estiver absorvido pela sua narrativa) é da família de um colega de turma, e, como se calcula, a relação entre o plano da realidade e a efabulação do relato, só pode estar destinada a criar ondas de choque.

Ozon e o seu cast excepcional conseguem manter sempre uma dose muito grande de incerteza acerca da veracidade dos factos, claramente subvalorizada em favor da sua verosimelhança, e a personagem de Claude, o aluno, é construída com uma densidade tão grande que nunca chegamos verdadeiramente a conhecer, a não ser no plano mais literário: a única coisa que Claude deseja é prender por completo a atenção do seu leitor.
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propensão
rosas
innersmile
cadeira

“A cultura é essencialmente uma questão de usar o passado para dar sentido ao presente. A cultura de um homem é a soma das suas memórias. Não consistirá numa abundância de factos, nomes e datas que ele tenha na ponta dos dedos, mas será antes a soma de tudo o que ele pensou e sentiu - ou seja, conheceu.

Se eu for confrontado com a decisão de escolher entre visitar um circo e uma catedral, um café e um monumento público, ou uma fiesta e um museu, receio bem que normalmente escolha o circo, o café e a fiesta, confiando na sorte para conseguir chegar a ver o restante mais tarde. Suponho que simplesmente não tenho aquilo a que hoje se chama «propensão para a cultura». Talvez isso aconteça porque para mim a cultura de uma terra num dado momento seja as pessoas que nela vivem e as vidas que elas aí levam, não os haveres que tenham herdado daqueles que vieram antes. Elas podem ou não tirar proveito do seu legado. Se o fizerem, tanto melhor para elas; mas quer o façam ou não, a sua cultura é representada por elas e não pela sua história.”


- Paul Bowles, VIAGENS (Quetzal)