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lourenço marques, pelo sonho é que vamos
rosas
innersmile
lm

Chamou-me a atenção, é claro, o título do livro, mas também o facto de se tratar de um volume de memórias, um género de que gosto em particular. Além disso descobri, pela informação da badana, que o seu autor, Nuno Roque da Silveira, é um colega meu, mais velho, é certo, mas com quem creio ter-me cruzado nalguma ocasião profissional.

Com o subtítulo Acerto de Contas Com o Passado 1951 / 1965, trata-se de facto de uma dupla memória: de uma viagem de férias a Lourenço Marques quando o autor cumpria o serviço militar em Angola, em 1965, e a propósito da qual recorda dois anos da sua juventude, entre 1951 e 1953, passados na capital moçambicana.

Muito bem escrito, bem complementado com fotografias, e sobretudo muito rico em histórias e informações, é um livro de memórias propriamente dito, inteiramente satisfatório para quem gosta do género e nutre interesse pelo seu objecto. É pena o autor ser pouco conhecido, e este livro passar um pouco despercebido, pois constitui dos testemunhos mais vivos e interessantes que eu conheço do que era a vida lourenço-marquina nos anos 50.

Já quase no fim do livro o autor refere o poeta Sebastião da Gama, a propósito do seu falecimento tão prematuro, e que ocorre precisamente em 1952, durante essa estadia moçambicana. Sebastião da Gama era professor, além de poeta, e eu lembro-me de que nos meus anos de juventude os seus Diários eram de leitura mais ou menos obrigatória, sobretudo por causa do seu exemplo de pedagogo.

Acho que apenas tenho um livro de poemas de Sebastião da Gama, que contém aquele que é um dos meus poemas preferidos. Poderá ser considerado um pouco ingénuo, mas é um poema que me acompanha desde sempre e que continua a ter uma força imensa, sobretudo os dois primeiros versos, que mais do que isso, são um verdadeiro mantra, um princípio de vida, uma espécie de ‘carpe diem’, muito anterior ao filme Dead Poets Society ter popularizado esta locução latina.

Já o devo ter posto aqui, eventualmente, mas é sempre bom dizer este poema, seja em silêncio, como uma prece, seja em voz alta, como uma canção:

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.