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rip james gandolfini
rosas
innersmile
Neste momento em que nos confrontamos com o seu desaparecimento brutalmente precoce, bastava uma carreira preenchida, ainda que discreta, no cinema para mostrar o talento de James Gandolfini enquanto ator. Mas foi, como é óbvio, a televisão, e a série Os Sopranos, que o consagrou e tornou popular.

Os Sopranos foi a melhor série de televisão de sempre. E não é apenas uma questão de gosto pessoal; a série marca o renascimento da ficção televisiva, e a transferência fulgurante da linguagem narrativa cinematográfica para o melodrama na televisão. A série era um portento de escrita cinematográfica, e havia cenas, sequências ou planos, verdadeiramente antológicas, de absoluto deleite, daquelas de um tipo ficar maravilhado, e arrepiado, a olhar para o ecrã.

James Gandolfini era mais do que o rosto de Os Sopranos: era o corpo e sobretudo a alma, aquela mistura da violência mais básica e irracional com uma complexidade emocional que, na maior parte das vezes, apenas o trabalho do ator conseguia transmitir. As sessões de Tony no gabinete da Dra. Melfi ultrapassam um muito a mera anedota do patrão da máfia que vai ao psiquiatra. A espessura, umas vezes de uma legibilidade desarmante e outras de uma opacidade intransponível, da personagem de Tony Soprano era um reflexo e ao mesmo tempo um símbolo da mais shakespeareana das ficções televisivas.

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innersmile
vietnam08.2 007 DSC03338

«- (...) Aqui sou bastante feliz, mas não quero viver cá para sempre. Não conseguiria. Quero voltar para Inglaterra. Há alturas em que me farto deste sol quente e destas cores berrantes. Quero ver céus cinzentos e uma chuva leve a cair, e quero sentir o cheiro do campo. Quando voltar, já vou estar velho e gordo, já não vou ter idade para caçar mesmo que tenha dinheiro para isso, mas posso dedicar-me à pesca. Não quero caçar tigres, quero caçar coelhos. E vou poder jogar golfe num campo como deve ser. Sei que não estarei em grandes condições para tal, é o que acontece aos indivíduos que passam a vida aqui, mas sempre posso frequentar o clube da minha zona e conversar com anglo-indianos reformados. Quero sentir debaixo dos meus pés o passeio cinzento de uma vila rural inglesa, quero poder discutir com o homem do talho porque o bife que ele me mandou no dia anterior era duro e quero andar à vontade pelos alfarrabistas. Quero ser cumprimentado na rua por gente que me conhecia quando eu era pequeno. E quero ter um jardim murado nas traseiras de minha casa para plantar rosas. Aposto que tudo isto lhe parece muito banal e provinciano, e enfadonho, mas é o tipo de vida que a minha família sempre teve e é o tipo de vida que também eu quero viver. Até se pode dizer que é um sonho, mas é tudo o que eu tenho, é tudo para mim, e não posso desistir dele.»

- Somerset Maugham, UM GENTLEMAN NA ÁSIA (Tinta da China)