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behind the candelabra
rosas
innersmile
Vi ontem à noite Behind The Candelabra, o último filme de Steven Soderbergh, sobre os últimos anos de vida de Liberace e a relação com o seu ‘assistente’ Scott Thorson. E aqui a palavra último tem não apenas o sentido de ser o mais recente, mas corre o risco de ser mesmo o derradeiro, pelo menos durante algum tempo. Vale a pena recordar que Soderbergh teve imensas dificuldades em financiar e distribuir o seu filme, com os estúdios a recusarem o projecto por ser ‘demasiado gay’, acabando por vendê-lo para o canal de televisão HBO (entretanto o filme foi exibido comercialmente em Inglaterra). Desmoralizado com estas dificuldades, que atribui à visão meramente comercial dos grandes estúdios de Hollywood, o realizador afirmou-se cansado do cinema e que se vai retirar da realização, pelo menos durante algum tempo.

Estão presentes os atributos habituais em Soderbergh: uma narrativa sumptuosa, em que o som, a música e as imagens são tão importantes como os diálogos ou o enredo, um tom de comédia negra, uma história com dilemas morais, e grandes actores a sacarem interpretações absolutamente fabulosas.

O filme baseia-se num livro publicado por Scott Thorson, e por isso a perspectiva é a do jovem amante do mais ‘flamboyant’ pianista norte-americano, para quem a noção de las Vegas parece ter sido inventada (tal como a palavra ‘flamboyance’!) Mas nem por isso o olhar do realizador fica contaminado, e se é verdade que o filme parece sempre suportar as justificações, sobretudo as morais, sobretudo as que ele presta a si mesmo, das escolhas de Scott, é na ambivalência com que o filme trata Liberace que reside o maior prazer para o espectador. Recusando reduzi-lo à condição de mero cromo, o Liberace de Behind Candelabra desperta ao mesmo tempo simpatia e repulsa, ternura e sarcasmo, benevolência e respeito.

Claro que para este tratamento da personagem de Liberace contribui muito o trabalho verdadeiramente excepcional do Michael Douglas. Uma das consequências do facto do filme não ter tido estreia comercial nos EUA, é estar fora da corrida aos Oscars, o que no caso de Douglas é mesmo uma tragédia. Quanto ao Matt Damon, na minha opinião, ele é bom, sempre bom, todo bom!

Visualmente sumptuoso, com um ritmo narrativo seco e estugado, um tratamento musical necessariamente opulento, Behind The Candelabra faz-nos apetecer pegar num avião e ir a Las Vegas ouvir Liberace a tocar num dos casinos da cidade.. Too late for that, claro, como parece, infelizmente, começar a ficar demasiado tarde para podermos aproveitar e gozar o magnífico cinema do Steven Soderbergh.

Só uma nota para acrescentar que além de Douglas e de Damon, o filme ainda nos traz de volta o Dan Aykroyd, o Rob Lowe (sinistro e quase irreconhecível), e sobretudo a adorável Debbie Reynolds.
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