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uma morte súbita
rosas
innersmile
16096215

A escritora inglesa J.K. Rowling cometeu a rara proeza de criar, através da figura de Harry Potter, mais do que uma personagem literária, um verdadeiro ícone da cultura popular (ao nível, por exemplo, de algumas das personagens de Walt Disney, ou do Peter Pan de J. M. Barrie). Mas se a façanha foi notável, imensa era também a responsabilidade de responder satisfatoriamente ao desafio de conseguir comprovar que era capaz de ser uma escritora aprés-Potter.

O seu primeiro romance para adultos, Uma Morte Súbita, tem ambição suficiente para o desafio, sendo outra a questão de saber se o resultado estará à altura dessa ambição. Dos livros de Potter (de que li os dois primeiros volumes, se bem me lembro), já sabíamos três coisas que este romance vem comprovar: Rowling tem um talento especial para criar personagens verosímeis, compreende o potencial narrativo da classe média (os muggles), e tem uma mão seguríssima, quer em termos de escrita quer em termos de estrutura narrativa.

O foco do livro é a vida de uma comunidade de uma pequena cidade de província, que por um lado vive e reflecte os grandes problemas das sociedades urbanas contemporâneas (a droga, a delinquência, a exclusão social, as roturas geracionais, etc), mas, por outro, não tem os meios de absorção de choque que têm os grandes centros urbanos, o que amplifica os seus impactos comunitários.

A comunidade é representada por um ensemble de personagens, que se é verdade que correspondem a determinados tipos ou categorias representativos da middle class britânica, são no entanto sempre tratados com a dignidade de verdadeiros personagens, com os seus dramas, a sua história e a sua psicologia. Não deixa de ser significativo que pelo menos cinco dessas personagens sejam adolescentes, e que são sempre elas, verdadeiramente, os verdadeiros motores da narrativa.
O livro lê-se com a curiosidade, o interesse e a paixão de um entomólogo, com as vantagens acrescidas de a narrativa ser absorvente e a escrita viciante. Não tenho a certeza absoluta de o resultado estar à altura da ambição de Rowling para este seu primeiro desafio pos-Hogwarts, e não estou sequer a contar com a imensa decepção que os fãs de Harry Potter sentiram; mas seja como for, trata-se de um romance com fôlego e muito trabalho, e cuja leitura ainda por cima é muito divertida.