June 11th, 2013

rosas

yoga e os passageiros da noite

Como nem tudo é mau, aproveitei os dias de inanidade hepática, e despachei mais dois livritos.

yoga

O primeiro foi Yoga Para Pessoas Que Não Estão Para fazer Yoga, da autoria de Geoff Dyer, uma colecção de ensaios que andam à volta das viagens, da experimentação com drogas recreativas e festas de música trance, e a descoberta da filosofia. O tom, claro, é de humor, e se achei o arranque do livro fraquito, sobretudo face às expectativas, a verdade é que vai sendo cada vez melhor e mais consistente (ou mais adulto, mas não me parece muito adequado usar esta expressão).

Eu sei que estas coisas têm uma importância relativa, mas há coisas que um tipo lê e fica mal impressionado. Logo numa das primeiras páginas (na terceira, se não me engano) aparece escrito que a cidade de Nova Orleães todos os anos se afunda um pouco, uma vez que está construída sobre as lamas da nascente do Mississippi! Suponho que tenha sido erro do tradutor; e o ponto é que encontrei mais dois ou três dislates do mesmo género, mas uma coisa destas logo no início, dispõe mal.

Mas tirando isto, é um livro que recomendo, sobretudo para quem quer ler nas férias alguma coisa que não seja muito pesada e exigente, mas que seja escrita com humor e com sentido.

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Entretanto, a Margarida emprestou-me dois livros do Haruki Murakami, para me converter à religião murakamiana, uma vez que eu, do autor, apenas tinha lido o livro de não-ficção, Underground, um docu-livro que relata o ataque terrorista com gás sarin no metro de Tóquio em março de 1995. Dos dois, comecei por After Dark, Os Passageiros da Noite, e, Direct Message for Margarida: estou convertido. Adorei o livro.

Numa notazinha que pus no site Goodreads escrevi mais ou menos isto: que se trata do admirável relato de uma noite, tal como a passam os anónimos passageiros do quotidiano, aquelas pessoas que, por uma razão improvável e insignificante, não desligam as suas vidas quando o relógio de ponto da vida civilizada dá o toque de saída.

A narrativa funciona com a frieza de uma câmara, por vezes é mesmo uma câmara; as personagens desfiam tranquilamente as suas existências, presas (como numa caçada) que encontram segurança e aconchego nas suas pequenas e irrelevantes idiossincrasias. Cada silêncio está saturado daquela angústia interior que aprendemos a domar e a que nos agarramos como se fosse um animal de estimação.

O que é aflitivo no livro, é que nunca nada daquilo que é importante e decisivo é dito, tudo se passa, nem sequer nas entrelinhas, mas numa espécie de imaterialidade que não conseguimos conceptualizar. E no entanto, está escrito em letras garrafais, nos neons que electrificam a noite da grande cidade: as nossas vidas são as mais doces das doenças mortíferas.