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Quando eu era miúdo abominava o 10 de junho: sábados e sábados de ensaios, e um dia inteiro passado à torreia do sol, com outras centenas de miúdos, de calções e camiseta cavada brancas, sapatilhas de elástico, a fazer ginástica na parada do quartel. Um horror.

Depois passei anos a desprezar a data, símbolo de tudo o que tinha ficado morto com o 25 de abril, até que descobri a lírica e a epopeia de Camões e aí passei a comemorar o dia com a alegria de um advento.

Houve entretanto um ano que o 10 de junho foi hilariante, quando o Cavaco, num lapsus mentalis, revitalizou o dia da raça e nós aqui no livejournal, os velhinhos que ainda cá andam e os que emigraram para as redes sociais, nos entretivémos a fazer um inventário da raça portuguesa: o castro laboreiro, o podengo português, o cão de água, o rafeiro alentejano, o serra da estrela, etc.

Mas desde que fui em novembro de 2006 a Malaca, na Malásia, o 10 de junho passou a ser o dia que dedico à comunidade portuguesa de Malaca. ‘Portuguesa’, note-se, não porque lá haja muitos portugueses, mas porque assim se continuam a denominar os descendentes daqueles portugueses que chegaram àquela terra há... 500 anos! E que vivem num bairro, o ‘kampung portugis’, nos arredores de Malaca, onde as ruas têm por nome apelidos patrícios, constituindo toda uma história da expansão marítima portuguesa ali, em placas toponímicas azuis com letras brancas: Jalan D’Albuquerque, a principal, Jalan Texera, Jalan Squera, Jalan Eredia.

Peguei nas fotos que fiz nessa ida a Malaca, e juntei-lhes duas faixas de um CD do Noel Felix, que comprei precisamente numa das lojas do ‘kampung portugis’. Os temas são cantados em kristang, o dialecto local que incorpora palavras do português que se falava no tempo das descobertas, e, ouvindo com atenção, conseguem-se entender muitas palavras portuguesas, sobretudo os nomes, na primeira das canções, El Bayo, que fala de marinheiros, do Gama, do Cabral, e, claro, de Portugal. Escolhi para esta canção fotos que têm mais a ver com Portugal, e para a segunda, outras fotos de Malaca, nomeadamente da característica arquitectura holandesa. E meti lá pelo meio três ou quatro fotos minhas, só pela gracinha.

Esta minha ida a Malaca foi das raras vezes em que senti verdadeiro orgulho em ser português, um orgulho feito não de honras e glórias passadas, mas de comoção pela capacidade de resiliência de uma cultura que, deixada assim ao abandono no mais longínquo e contrastante dos contextos, teima em manter-se viva.

E dedico este clip, é claro, à minha amiga Gaby. Mesmo distantes, mesmo em silêncio, continua a ser das pessoas de quem mais gosto, de quem tenho uma saudade só igual à ternura que sinto por ela; e uma das minhas pessoas preferidas em todo o mundo para passar um fim de tarde tranquilo a conversar (e a trocar confidências...) no Discovery Cafe.



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