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co-adopção
rosas
innersmile
Confesso que às vezes tenho saudades do politicamente correcto. Agora está na moda dizer mal do politicamente correcto, mas, sinceramente, parece-me que na maior parte das vezes em que alguém decide calar-se porque o que teria para dizer ‘parece mal’, essa decisão vem a verificar-se acertada. Sim, é preferível não abrir a boca a dizer asneiras.

Lembrei-me disto a propósito da discussão que tem gerado a co-adopção que foi aprovada, na generalidade, pelo parlamento nacional a semana passada. Naturalmente defendo o direito à adopção plena por parte dos casais do mesmo sexo, mas já fiquei muito contente por ter sido aprovada a co-adopção: um passo de cada vez, o caminho faz-se caminhando, e tal. E o que está em causa na co-adopção é tão elementar e sensato (a possibilidade de o conjuge do progenitor biológico ou adoptivo em situação de paternidade legal, co-adoptar o filho do seu conjuge), que me parecia ser uma questão relativamente pacífica. Engano, claro.

Para além do argumentário mais ou menos gasto e esperado baseado na ignorância homofóbica (e é-o sempre: só temos medo daquilo que desconhecemos), ouvem-se e lêem-se coisas extraordinárias; dizer que os homossexuais que adoptam estão à espera que os seus filhos cresçam para os seduzir, é absurdo, mas é sobretudo cruel. Magoa! Ainda por cima neste caso da co-adopção, em que a criança a ser co-adoptada é filho de um dos membros do casal! Há um ditado antigo que diz que ‘honny soit qui mal y pense’ e francamente não percebo o que é que pode passar pela cabeça desta gente que diz estas coisas sem se arrepiar (lá estão as saudades do politicamente correcto).

Mas custa-me ainda mais ver pessoas que respeito a embarcarem na onda dos disparates. Custa-me muito ver D. Manuel Clemente a apelar desesperadamente aos deputados partindo do pressuposto de que decidiram sem saber o que estavam a fazer. Admito, ainda que isso fira a minha dignidade humana, que uma pessoa inteligente não perceba que a homossexualidade é simplesmente uma maneira diversa de viver um aspecto ‘natural’ da condição humana como é a sexualidade. Mas não percebo, porque me parece insanavelmente contraditório, como é que pessoas que defendem à outrance o valor da família neguem a crianças que vivem já com o progenitor o direito a serem adoptadas pelo conjuge desse progenitor.

Como é que alguém pode dizer seriamente que acha preferível uma criança estar institucionalizada do que ser adoptada por um casal de pessoas do mesmo sexo? Uma criança só tem dois direitos fundamentais: um é o de ser amada; o outro é o de ser feliz. E se há coisa que me liga ao católico mais ortodoxo é a crença de que, no nosso estadio civilizacional, a melhor hipótese de uma criança ser amada e ser feliz é no seio de uma família. Como é que se pode acreditar nisto e negá-lo ao mesmo tempo?!
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