May 26th, 2013

rosas

amadora

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Ontem ao fim da tarde, larguei a mochila no quarto de um hotel de uma estrela, no centro da Amadora, subi a rua até ao jardim da estação, e continuei em frente até chegar à porta 263B. Vivi neste prédio no Verão de 1977, entre finais de junho e finais de outubro, brevíssimos quatro meses, mas que me ficaram para sempre na memória. Depois de uma pasmaceira de um ano lectivo na Beira Alta e Trás-os-Montes, sozinho e desterrado com familiares que não conhecia e a quem não me ligava qualquer afecto, esse foi o Verão em que voltei a estar ao pé dos meus pais, e descobri que afinal Portugal era Lisboa. Foi um Verão igualmente solitário, tinha muito poucos amigos, só um, que eu me lembre, da minha idade. Mas foi muito animado, fazíamos coisas, ouvíamos música, líamos o Diário de Notícias, ouvíamos os Parodiantes na rádio, íamos ao cinema a Lisboa. Foi, em certo sentido, um Verão que se consumiu a si próprio, houve uma parte da minha vida que começou e terminou nesses curtos quatro meses, e de que esta casa, que finalmente consegui reconhecer, parar diante dela, tirar uma foto ao prédio, é um símbolo. Talvez tenha sido da belíssima tarde de sol de ontem, e do bulício daquela zona da Amadora, gente nas ruas, o jardim com crianças, barulho, mas quando estanquei em frente ao prédio amarelo, pareceu-me reconhecer nele uma ideia de felicidade.

O pretexto para ir à Amadora, foi mais um jantar organizado pelo meu amigo João, desta vez com a ajuda da Margarida, que reune pessoas que escrevem em blogs, mas sobretudo cuja presença nos blogs anda à volta do próprio blog do João, que tem a rara qualidade de conseguir tocar nas pessoas, agregá-las e mantê-las próximas. E tem igualmente a qualidade de conseguir fazer uns jantares muito descontraídos e divertidos, com boa comida e melhor convívio, onde se está apenas pelo prazer de se estar.

Eu estava com muita vontade de ir ao jantar de ontem porque tinha saudades de estar com alguns amigos com quem normalmente só estou nestas ocasiões, mas que já nos conhecemos e acompanhamos há muito tempo, e com quem gosto muito de estar. E também porque queria muito conhecer pessoalmente outros amigos com quem a ‘troca’ virtual tem sido intensa e profícua, mas a que faltava esta coisa importante de dar um rosto e uma voz. E acho fantástico que mais uma vez me aconteceu a sensação de o conhecimento pessoal ser uma espécie de prolongamento, de confirmação, do lugar que as pessoas já ocupavam no meu ideário afectivo. E, claro, além de umas e outras (das que já conhecia e das que queria conhecer), o jantar foi igualmente a oportunidade de novos conhecimentos, e de usufruir de uma coisa um bocado mágica, que é estar com pessoas criativas, brilhantes, divertidas, e que nos provam (se fosse preciso) como somos sempre tão diversos e tão semelhantes uns aos outros.

E olha João, isto agora é só para ti, e serve de resposta a um comentário que fizeste num texto anterior. Confesso que quando percebi que tu ias ler ‘aquele’ texto, achei a escolha um bocadinho inapropriada, não só por ser um texto muito pessoal e íntimo, e isso me causar algum pudor, mas sobretudo porque achava que o tom era demasiado triste e não tinha nada a ver com a ocasião. Mas depois tu começaste e ler e eu descobri um profundo e intenso prazer em te ouvir lê-lo. Descobri que o texto não era nada triste, e que afinal fazia muito sentido ouvir-te fazer, naquele lugar e entre aquelas pessoas, e com palavras que eu escrevi, uma invocação daquele que foi o mais prodigioso dos meus amigos. Agradeço-te, também por isso, muito: de certa forma puseste um termo à mágoa e ao desgosto; fizeste-me perceber que ter sido amigo do Saint e recordá-lo é, sempre, uma razão para a maior alegria.