May 19th, 2013

rosas

em lume brando

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Uma das coisas que me chateia na internet é que tem muita parra e pouca uva, muita informação mas pouca análise, demasiados sound-bites e pouca reflexão; uma pesquisa no google dá-nos milhares de resultados, mas encontrar algum que de facto nos acrescente alguma coisa, é como procurar agulha em palheiro. E isto vem a propósito de já andar há uns dias à procura de referências ao livro Um rapaz a Arder, que Eduardo Pitta lançou ontem mesmo, em Lisboa, mas que já está à venda julgo que desde o passado dia 10, e nada: muitas referências aos acontecimentos, quer da publicação quer do lançamento, mas uma opiniãozinha que fosse, uma análise mesmo que superficial, nada! E eu estava mesmo a precisar de me confrontar com outras opiniões, mais não seja para ajudar a construir a minha.

E a primeira referência que leio ao livro, foi publicada na edição do Ipsílon de sexta-feira, numa recensão da autoria de António Guerreiro. Não conheço os mentideros do mundo literário nacional, sou apenas um leitor atento, que por isso segue, à distância, as novidades da literatura nacional, nas páginas electrónicas e blogs sobre o tema, e através de jornais e revistas, ou das páginas que os jornais e as revistas dedicam aos livros. Mas mesmo eu já tinha percebido que Eduardo Pitta e António Guerreiro, ambos críticos literários, não se cruzam, lembro-me de ocasiões anteriores em que houve troca de picardias (lembro-me vagamente de uma, a propósito de um festival literário); reparei, por exemplo, que quando o Eduardo Pitta deixou de escrever no Ipsílon, e passou para a Sábado, o António Guerreiro deixou de escrever no Expresso e passou a escrever no Ipsílon! E, agora não me escapou uma alfinetada que o Eduardo Pitta dá no livro ao António Guerreiro, e que este refere no texto arrasador que dedica ao livro de memórias de Eduardo Pitta.

Tudo isto para dizer que, mesmo dando de barato que os dois não se devem gramar (digo, eu, claro, aqui do meu total desconhecimento destas coisas), não posso deixar de concordar, no geral, com o que António Guerreiro refere na sua severa apreciação do livro Um rapaz a Arder. O que não invalida nada o facto de eu achar que o Eduardo Pitta escreve com rara elegância, e com um poder de síntese e concisão perfeitas. Cada frase é lapidada até ao ponto perfeito em que fornece a maior quantidade de informação com o mínimo de recursos indispensável, e isso torna a leitura entusiasmante e densa.

Mas no tocante ao conteúdo, acho que o livro nem sequer faz muito jus à indicação de que se trata de um volume de Memórias. Tratar-se-á porventura de uma crónica, pessoalíssima no sentido de ser sempre feita a partir da perspectiva, ou do ponto de vista, do seu autor, de vinte e tal anos de vida portuguesa, com enfoque na cronologia política, e sobretudo no meio cultural e artistico, principalmente no literário.

Para voltar ao início do meu texto, precisava mesmo de outras opiniões sobre o livro, porque tenho em relação a ele sentimentos contraditórios, e estou disponível para rever tudo o que penso e escrevi! Diverti-me muito a lê-lo, fi-lo de modo quase compulsivo, mas achei-o superficial e até um pouco inconsequente, quase como uma lista telefónica gourmet, se é que a expressão faz algum sentido.