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primeiro de maio
rosas
innersmile
Durante muitos anos, o Primeiro de Maio tinha para mim um significado exclusivamente político. Cheguei, umas duas ou três vezes, a descer a Avenida Sá da Bandeira a cantar o famoso slogan ‘cê-gê-tê-pê-unidade-sindical’.

Há seis anos, o dia 1 de maio marcou a mudança de local de trabalho, depois de 16 ou 17 anos a trabalhar na mesma instituição. Foi uma decisão que me custou muito, estava muito ligado afectivamente a uma organização cuja camisola vesti por dentro do peito, e onde fiz tudo e de tudo, o que cabia na job description e o que manifestamente a transbordava. Mas os últimos três anos lá foram muito dificéis, fui maltratado vezes q.b., e isso ajudou a amenizar a saída. Seis anos depois não estou nada arrependido, e na organização onde trabalho actualmente recuperei o gosto pela profissão (até me tornei um bocado workaholic, acho eu, numa idade em isso já desgasta um bocado), e trabalho integrado numa equipa de luxo, onde só fiz amigos e companheiros.

Mas desde o ano passado, este dia 1 de maio passou a ter outro significado. Faz hoje exactamente um ano, preparava-me para me deitar, e tive as primeiras hematúrias, sinal de que alguma coisa de muito errado se passava. Felizmente foi tudo muito rápido, e em menos de um mês diagnosticaram-me um carcinoma urotelial, felizmente com baixo grau de malignidade, fui operado, fiz uma instilação, e tive alta sem precisar de fazer mais tratamentos. Desde então já fiz duas citoscopias de controlo, e os exames citológicos deram sempre negativos (o próximo é já em julho, e sublinho o ‘já’, pois o exame é razoavelmente incómodo e desagradável).

Mas ainda hoje me sinto um bocado atordoado com este meu segundo encontro com o cancro, trinta anos depois (faz este ano) de ter tido um cancro muito grave, que me roubou três anos da minha juventude. Dizia que ainda me sinto atordoado, um bocado como nos desenhos animados quando o boneco leva uma marretada na cabeça e fica completamente tonto, sem saber o que lhe aconteceu. Aquele medo insidioso, subterrâneo, sombrio, associado à doença e ao seu disgnóstico, voltou a fazer parte da minha vida, e com o aspecto ainda mais desagradável de ser um sabor amargo que eu já conhecia, que de vez em quando, mas cada vez mais raramente, me assaltava sob a forma de um certo pânico. Agora sei que os próximos quatro ou cinco anos vão ser passados assim, a contar meses, a controlar o medinho, a tentar não pensar nisso. Mas, hélàs, um ano já passou!