April 25th, 2013

rosas

como um cristal partindo-se plangente

Hoje é dia 25 de abril (se calhar justifica-se esquecer o novo ortográfico, e grafar Abril com A maiúsculo) e uma das canções mais associadas à Revolução de Abril é a Canção com Lágrimas, do Adriano Correia de Oliveira, com um poema belíssimo e poderoso do Manuel Alegre, que se refere, como é evidente, à guerra colonial, que ceifou a vida de muitos milhares de jovens portugueses. E é bom lembrar, quando há tanta gente que hoje em dia quer branquear a data, ou até fazê-la desaparecer, que o 25 de Abril se fez pela liberdade e contra a ditadura, mas se fez sobretudo contra o absurdo da guerra colonial.

Apesar de conhecer esta canção há muitos anos, toda a minha vida de facto, já que o meu irmão a cantava e tocava à viola quando eu era muito miúdo, muito antes de 1974, nestas últimas semanas tenho-me lembrado muito desta Canção com Lágrimas, e tenho-a ouvido e cantado muitas vezes, mas por outras razões. É curioso, porque de certo modo ela fez um percurso inverso ao que será mais habitual: aos poucos foi perdendo o seu carácter mais político ou mesmo ideológico, e foi ganhando um sentido mais íntimo e pessoal.

Tenho-me lembrado muito desta canção a propósito do seu "nome escrito com ternura sobre as águas", do seu "retrato em cada rua onde não passas, trazendo no sorriso a flor do mês de Maio". Se calhar não faz sentido relembrá-lo aqui a propósito do dia de hoje, mas a verdade é que quando logo ao acordar ouvi na rádio a canção do Adriano, foi, mais uma vez, dele que logo me lembrei.



Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera me Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem em dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...




E pronto, agora vou num instante meter-me ali no meu automóvel e vou passar 4 dias de sul, de sol e, espero bem, de sal. Ah, e de muitos mimos à minha sobrinha-neta, a quem não vejo desde o dia primeiro de janeiro, e por quem estou cheiinho de saudades.