April 24th, 2013

rosas

mr norris muda de comboio

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Comecei a ler o Mr. Norris Muda de Comboio no domingo de manhã e terminei-o ontem à noite (em horário pós laboral, note-se). Com o Christopher isherwood está-me a acontecer aquilo que sempre acontece com os meus escritores preferidos: cada vez que leio um livro seu, acho que é o melhor. Este Mr. Norris poderá não ser o melhor livro de Isherwood (nem, provavelmente, o melhor dos que li), mas o gozo da leitura é tão grande e exaltante, que se sente quase uma euforia por estar a ler uma coisa tão vertiginosa do ponto de vista da narrativa e da escrita.

Mr. Norris forma, juntamente com Adeus Berlim (também já por cá editado pela Quetzal, que parece ter suspenso o seu plano de editar a obra toda de Isherwood), as famosas Berlin Stories do autor, que estiveram na origem da peça de teatro I Am A Camera, do filme com o mesmo título que adaptou a peça para o cinema, do regresso aos palcos, já nos anos 60, com o musical Cabaret, e finalmente do filme que adaptou o musical e que foi o melhor filme de 1972!

Mas sobretudo as Berlin Stories foram o relato possível que Isherwood conseguiu ficcionar a partir das suas experiências na Berlim da República de Weimar, dos anos 20 e 30, num clima de liberdade de costumes, de vanguarda artística e intelectual, e de tumulto político, mas também de anarquia e recessão económica gerador de uma decadência que iria desembocar na ascenção do nazismo, e onde Isherwood pode viver a sua condição homossexual de forma mais ou menos assumida, numa fuga à repressão aos rigores e aos formalismos de classe britânicos.

Posteriormente, Isherwood manifestou alguma insatisfação relativamente a Mr. Norris, sobretudo pela sua falta de honestidade, na limpeza que fez de toda a homossexualidade ao narrador do livro e seu co-protagonista, e que é um retrato tão fiel de si próprio que se chamava William Bradshaw, precisamente os dois nomes do meio de Christopher Isherwood. Em livros publicados muito posteriormente, Isherwood comprometer-se-ia a ‘repor a verdade dos factos’ em relação a si próprio, e à verdadeira natureza do desejo que o levou a Berlim e o fez permanecer na cidade, com algumas intermitências, durante boa parte dos anos de 1928 a 1933.

Apesar da sua brevidade, pouco menos de duas centenas e meia de páginas, trata-se de um romance poderoso, onde a escrita límpida e cristalina de Isherwood consegue acrescentar camadas e camadas de subtileza e segundos sentidos numa história em que o que parece é, mas é sempre igualmente muitas outras coisas que ficam por dizer.